X
Artigo

Artigo - A moda agora é se divertir

Toda derrota é amenizada e toda vitória é supervalorizada se o atleta curtiu o seu momento. Vivemos uma espécie de idiotização do esportista. E isso é péssimo para o esporte nacional.

Diego Monsalvo, professor de filosofia e escritor / DIVULGAÇÃO

Por Diego Monsalvo

Tenho assistido com uma certa regularidade a vários programas sobre as Olimpíadas de Tóquio 2020.

Particularmente, gosto desse momento de clima olímpico! Gosto dessa ideia que nos faz pensar, ainda que por um breve mês, sobre uma congratulação mais sincera da humanidade. Gosto, inclusive, dessa maneira inusitada que desenvolvemos nesse período de assistir a determinadas modalidades esportivas sem entender suas regras e, ainda assim, comentar como um especialista e contestar todas as notas do júri técnico. 

Agora, sinceramente, o que não tenho suportado é essa “antipedagogia” do Brasil contemporâneo que tenta descrever o esporte como curtição. Se não se divertiu, não valeu a pena. Toda derrota é amenizada e toda vitória é supervalorizada se o atleta curtiu o seu momento. Vivemos uma espécie de idiotização do esportista. E isso é péssimo para o esporte nacional. 

Com isso não quero dizer que o esporte não implique alegria e não tenha seus momentos de diversão. Um sorriso, uma dancinha, uma piscada para as câmeras, uma provocação do adversário, enfim, vindo da originalidade do atleta, também será parte do seu legado. A personalidade de cada um é uma marca integral da sua própria atividade.

Porém, essa ideia que sustenta que o importante é se divertir, quebra o próprio espírito esportivo que tem como sua marca fundamental o autoconhecimento e a superação das próprias limitações. Como já disse, é uma antipedagogia. Ao invés de ensinar, deseduca toda uma geração de crianças e futuros atletas, pois faz do esporte um “bico” e do esportista um deslumbrado. 

Se tem uma coisa que precisamos aprender durante toda a nossa vida é a angústia de lidar com as nossas escolhas. Viver é escolher e escolher pela curtição não é o caminho para a disciplina que temos que ter para nos sentirmos verdadeiramente livres e autônomos. Sem autodisciplina, privações e hábito, o talento se evapora. E é isso que deve ser valorizado em todos os nossos esportistas. Ganhando ou perdendo. É uma ofensa alguém dizer a um atleta depois da sua competição, mas e aí, se divertiu? Não é justo. Esporte é trabalho. E como já nos dizia Marx (1818-1883), o trabalho é o processo da ação que muda ao mesmo tempo duas naturezas, a externa e a humana. Trabalhar é moldar-se a si mesmo e se fazer pertencente e transformador do meio em que se vive. O que um atleta faz é trabalhar. Ele constrói a sua liberdade a partir desse processo vital.

Respeite o atleta!

* Diego Monsalvo, professor de filosofia e escritor

Deixe a sua opinião

VEJA TAMBÉM

ÚLTIMAS

Praia Grande abre concursos públicos em duas áreas; salários chegam a R$ 7 mil

No total, são 77 vagas em diferentes cargos

TRÂNSITO

Obra: Prefeitura de São Vicente interdita ruas para solucionar problema de drenagem

Parte das ruas Martim Afonso e José Bonifácio está interditada por conta das intervenções

©2021 Diário do Litoral. Todos os Direitos Reservados.

Layout

Software