Artigo - A incompetência do racionamento

É inadmissível que tenhamos que passar por mais e mais racionamentos de água em um país tão bem servido desse líquido

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30 JUL 2021Por Artigo06h40
Silvio Sebastião Pinto, Analista Programador e EscritorSilvio Sebastião Pinto, Analista Programador e EscritorFoto: DIVULGAÇÃO

Por Silvio Sebastião Pinto

Há cerca de 3.600 anos um jovem, escravo hebreu, foi convocado para contornar os efeitos de uma seca iminente que duraria sete anos no Egito. O rapaz, sem qualquer qualificação técnica para a empreitada, conseguiu criar vários armazéns e uma política de retenção de 20% de tudo o que se plantava no país. Daí todos já sabem, o país conseguiu sobreviver à estiagem com muita competência. 

Em 28 de junho o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, admitiu que o Brasil está em crise hídrica e pediu uso consciente de água e energia para não haver racionamento. Hoje temos tecnologias maravilhosas, tanto para prever o tempo quanto para extrair água, armazenar e distribuí-la. É inadmissível que tenhamos que passar por mais e mais racionamentos de água em um país tão bem servido desse líquido, embora a previsão seja de que vão nos pedir pra fechar as torneiras.

Recentemente pesquisadores da Coreia do Sul criaram uma nova técnica capaz de dessalinizar grandes quantidades de água em apenas alguns minutos. Isso é magnífico, se o Brasil não tivesse tanta água doce disponível ainda poderíamos usufruir da grande costa que nos cerca usando esse processo. Não nos faltam recursos, falta é competência para nos trazerem soluções duradouras. Um bando de trapalhões entra e sai a cada quatro anos com promessas hipnotizantes, mas os problemas não são resolvidos. De acordo com o pesquisador da USP Pedro Luiz Côrtes, a situação atual dos mananciais que abastecem a grande são Paulo indica que, além de escassez para este ano, ainda teremos uma crise de abastecimento em 2022. Com todo o nosso aparato tecnológico isso é inaceitável. 

Todo ano, quando vai se aproximando o inverno, quando as chuvas escasseiam, os noticiários correm para a beira das represas e aí começam as apostas para ver quanto tempo vão durar os estoques de água, e então os governos começam a anunciar que vão tirar coelhos da cartola, mas não procuram fazer nada definitivo, nada que seja realmente profissional. Os sistemas Cantareira e Alto Tietê já estão com os reservatórios abaixo do volume de 2013, o ano anterior à grande crise hídrica, segundo a própria Sabesp. Isso não é bom.

A baixada é prova desse descaso, Guarujá e Praia Grande têm um triste histórico no suprimento de água. Entretanto, no dia 20 de maio a Sabesp anunciou o que pode ser a gota d´água que faltava, será criado um reservatório na atual Cava da Pedreira, que irá atender diretamente Guarujá, mas por tabela vai beneficiar toda a região. Não resolve todos os problemas do Brasil, mas é uma boa iniciativa. O problema é que desde sempre temos apenas isso, iniciativas pontuais, esmolas, não há um plano coordenado de crescimento, nada de planejamento estrutural de longo prazo. E não penso que isso irá mudar, por que o período de grandes promessas e pequenas realizações é tão cíclico quanto o das chuvas e da estiagem, só que um dura um ano e ou outro dura quatro.

* Silvio Sebastião Pinto, analista programador e escritor