Artigo - A fogueira do consumismo

Grande parte do que consumimos vem de fontes não renováveis, nós saqueamos a natureza e não repomos. Essa conta não vai fechar.

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16 JUL 2021Por Artigo06h40
Silvio Sebastião Pinto, Analista Programador e EscritorSilvio Sebastião Pinto, Analista Programador e EscritorFoto: DIVULGAÇÃO

Por Silvio Sebastião Pinto

Segundo estimativas da ONU a população mundial chegou a 7,9 bilhões em abril de 2021. 

Os governos têm trabalhado muito por uma produção de bens cada vez maior, para aumentar o PIB, gerar riquezas e expandir seus mercados. Tudo certo, é assim que se sustenta uma nação. E de outro lado estamos sempre lutando por um mundo menos poluído, mais sustentável e sem agressão à natureza. Em teoria as duas coisas são possíveis e estão dentro de um mesmo plano, como o côncavo e o convexo. Mas é pura utopia. A economia precisa atiçar cada vez mais a fogueira da produtividade, que por sua vez precisa cada vez mais de insumos, que são arrancados do chão, das matas, dos rios e dos mares. 

Eu digo em tese porque faz sentido afirmar que se o consumo for consciente, se levarmos a sério a reciclagem dos materiais e o respeito à natureza, viveremos felizes para sempre. E eu afirmo que é utopia porque a velocidade em que extraímos as matérias primas para joga-las na fornalha da transformação industrial ainda é muito maior do que a velocidade da consciência e do respeito à natureza. A derrubada de árvores para abrir clareiras, o assoreamento dos rios, a poluição dos mares e do ar, tudo junto, expõe uma grande sepultura prestes a nos engolir. 

As nossas técnicas e tecnologias ainda são bem melhores para destruir do que para construir. Técnicas caras e complicadíssimas são aplicadas a uma bomba capaz de destruir uma cidade inteira em dois minutos, mas a construção de um único edifício pode demorar até dois anos. 

É correto que os governos lutem para manter as populações empregadas e alimentadas, mas existem alguns pontos delicados que precisam ser analisados sem hipocrisia: 1) o aumento desenfreado da população mundial é um problema grave, e ninguém está tratando isso com seriedade. 2) O papel das propagandas é incentivar o consumo eterno, profundo e incondicional. 3) Grande parte do que consumimos vem de fontes não renováveis, nós saqueamos a natureza e não repomos. Essa conta não vai fechar. 

Nós somos a sociedade do prazer; nossa comida precisa ser bonita, adornada. A mesa precisa ser bem posta, sofisticada. A casa precisa ser confortável para refletir quem eu penso que sou e precisa ser melhorada cada vez mais para abrigar quem eu poderia ser. A velha luta entre o ter e o ser. 

As tecnologias que produzimos para nos ajudar na lida diária são as mesmas que estão preparando o nosso fim, e o problema não são as tecnologias, e sim o que fazemos com elas. Nós as colocamos a serviço de uma fogueira de vaidades e ambições sem fim, mas consumindo recursos que já estão perto do fim. 

Seria prudente reduzirmos a intensidade do nosso estilo de consumo e dar mais valor à vida; algo como passar mais tempo à mesa do café conversando e rindo com a família, valorizando mais o sorriso e menos o café.

* Silvio Sebastião Pinto, analista programador e escritor