Artigo - A China e a privacidade do planeta

Abro mão da minha privacidade na rua para ver os bandidos na privacidade da cadeia

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24 JUL 2021Por Artigo06h29
Silvio Sebastião Pinto, Analista Programador e EscritorSilvio Sebastião Pinto, Analista Programador e EscritorFoto: DIVULGAÇÃO

Por Silvio Sebastião Pinto

Comunismo é um regime social, político e econômico que teve na Rússia o seu surgimento como política de estado. Segundo o dicionário Houaiss ele pretende a superação do capitalismo, o fim da propriedade privada, um partido único e, num último estágio, a supressão do próprio Estado. Só que não.

Na Rússia e na Alemanha esse sistema faliu, mas na China ele prosperou, apesar de ter descambado justamente para o lado que ele mais abomina: o fortalecimento do capitalismo e da burguesia. No comunismo de fachada da China a propriedade privada será cada vez mais privada, principalmente para a elite do Partido, e o Estado nunca será suprimido. Pelo contrário, será cada vez mais forte e supressor. E é aí que entra um elemento tecnológico que nos deixa em grande desvantagem, a espionagem. Quem pode espionar livremente tem maior controle da situação, e aqui não temos esse poder.

A China vigia cada cidadão, cada passo. Em um país democrático isso é impensável, pois a liberdade de expressão e a privacidade são bens caros e inarredáveis. Lá o comunismo, que veio com a retórica de libertar o povo da opressão das elites dominadoras, se tornou a principal opressão.  É um sistema que ofende a dignidade humana pois dita em detalhes como deve ser a conduta de cada um, e reprime com violência as opiniões contrárias. Ok, nós não somos assim, mas essa parte de ter um controle mais efetivo sobre a segurança pode ser de grande valia.

Podemos tirar uma lição boa de todo o aparato tecnológico que dá vida a essa repressão estrutural. As câmeras que são usadas nas ruas e estabelecimentos comerciais para detectar atitudes contrárias ao Partido poderiam ser usadas efetivamente para detectar procurados pela polícia no Brasil. Eu prezo muito pela minha privacidade, tenho democracia no sangue, mas se for para o bem geral da nação, acho que dá para admitir um certo grau de monitoramento. De que me vale tanta privacidade se os marginais estão me vigiando o tempo todo para me roubar? Nós dizemos que se um político não tem nada a temer não deve impedir a quebra de sigilo quando a justiça determina; então se não temos nada a temer podemos sim, permitir que a nossa privacidade fora de casa seja monitorada. Veja bem, em lugares públicos já não temos privacidade nenhuma, concorda?

A ‘privacidade’ na qual nos escondemos também protege os bandidos que nos vigiam, e isso não me parece apropriado. Mas, e se usarem essas informações para outras finalidades?

Primeiro, já fazem isso hoje o tempo todo e, segundo, o que você teme tanto assim? Pior que ser monitorado pela polícia é saber que os bandidos que querem me roubar estão encastelados do meu lado. Reduzir a nossa privacidade em público não vai piorar a vida de ninguém.

Por isso que eu digo, eu abro mão da minha privacidade na rua para ver os bandidos na privacidade da cadeia.

* Silvio Sebastião Pinto, analista programador e escritor