O cenário da violência contra a mulher no estado de São Paulo atingiu marcas alarmantes em 2025, com o registro oficial de 266 feminicídios. No entanto, o número real pode ser ainda mais sombrio, especialmente em regiões como a Baixada Santista, onde a mudança no modelo de divulgação de estatísticas pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) tem dificultado o mapeamento detalhado dos crimes.
A fragmentação dos dados e a falta de boletins regionais automáticos impõem barreiras para que prefeituras e órgãos locais compreendam a dimensão exata do problema em cidades como Santos, Guarujá e Praia Grande.
Diante desse “apagão” de informações e da letalidade crescente, surge a necessidade de entender não apenas os números, mas a origem do comportamento violento.
Para analisar os mecanismos mentais de quem agride, entrevistamos o médico psiquiatra doutor Sergio Luiz dos Santos Prior.
Com décadas de experiência na rede pública de Santos e Praia Grande, o especialista detalha a estrutura psíquica desses indivíduos, desmistificando a ideia de que a violência é sempre fruto de um surto ou de uma doença mental incontrolável.
DL: Doutor, existe um diagnóstico psiquiátrico comum entre agressores e autores de feminicídio ou a violência é, na maioria das vezes, uma escolha consciente de poder e controle?
Dr. Sergio Prior: Alguns agressores de mulheres são assassinos seriais ou têm condições psiquiátricas que os levam a cometer crimes por prazer pessoal.
Estes em sua grande maioria são portadores de transtorno de personalidade antissocial, cujas características são violações recorrentes das normas sociais, incluindo mentiras, furtos e condutas irresponsáveis que expõem terceiros ou a si mesmo a riscos desnecessários.
DL: É possível diferenciar um agressor com Transtorno de Personalidade Narcisista ou Antissocial de alguém que reproduz um machismo estrutural violento?
Dr. Sergio Prior: O machismo estrutural é um sistema de opressão enraizado na sociedade que privilegia homens e perpetua a desigualdade de gênero, influenciando normas, leis e comportamentos cotidianos.
O perpetrador de tais comportamentos pode ter o diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial ou transtorno de personalidade narcisista, este último caracterizado por apresentar sensação perca dica de grandiosidade, falta de empatia e exploração dos relacionamentos interpessoais, porém, isso não é obrigatório.
DL: Por que é comum que o agressor seja visto como uma pessoa “acima de qualquer suspeita” na vida pública, como no trabalho ou entre amigos, e seja extremamente violento na vida privada?
Dr. Sergio Prior: Em função da capacidade do agressor conseguir “disfarçar” perante a boa parte das pessoas ao seu redor os seus aspectos destrutivos e violentos, assume um padrão de comportamento de uma pessoa acima de qualquer suspeita.
DL: Qual é o peso real do álcool e das drogas na violência contra a mulher? Eles são a causa da agressão ou funcionam apenas como um “desinibidor” para uma violência que já estava latente?
Dr. Sergio Prior: Estudos com a população geral indicam que uma grande proporção de indivíduos está sob efeito de álcool quando a violência ocorre, e que indivíduos com consumo excessivo (“heavy drinkers”), consumidores sem controle e aqueles que registram problemas relacionados ao álcool têm maior probabilidade de se envolverem em relacionamentos violentos do que aqueles que se abstêm ou bebem com moderação. O mesmo se aplica às substâncias psicoativas.
DL: Na fase de “lua de mel” do ciclo da violência, o arrependimento do agressor costuma ser genuíno do ponto de vista psíquico ou é uma ferramenta de manipulação para manter a vítima na relação?
Dr. Sergio Prior: Não existe fase de “lua de mel” entre agressores e vítimas. Existem sim períodos em que o agressor percebe que tem de ceder em diversos aspectos para que posteriormente possa voltar a perpetrar a falta de empatia e agressividade às suas vítimas.
