3 minutos de logos: Por que os filmes brasileiros têm tantas marcas na abertura?

De bancos estatais a empresas de energia, entenda a engenharia financeira que lota a tela antes de o filme começar

Sem grandes estúdios que bancam integralmente as produções, o cinema brasileiro depende da combinação de diferentes fontes de financiamento para sair do papel

Sem grandes estúdios que bancam integralmente as produções, o cinema brasileiro depende da combinação de diferentes fontes de financiamento para sair do papel | Unsplash/Krists Luhaers

Você senta no cinema, a luz apaga e a sessão começa. Só que, em vez da primeira cena, o que aparece é um desfile interminável: Ministério da Cultura, Ancine, governo do estado, prefeitura, banco de desenvolvimento e uma enxurrada de logomarcas de empresas privadas. 

Para quem está comendo pipoca, parece só burocracia. Para os realizadores, essa tela poluída é o troféu de uma guerra de captação que costuma levar anos.

O motivo dessa abertura prolongada é puramente financeiro. Fazer cinema no Brasil custa caro, e a conta quase nunca fecha com um único cheque.

Como não temos o modelo de grandes estúdios de Hollywood, que bancam produções inteiras do próprio bolso, o cineasta nacional precisa montar um quebra-cabeça. Cada logo na tela representa uma fatia diferente do orçamento garantida via incentivo público.

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A mágica da renúncia fiscal

Quando o emblema de uma gigante da energia ou de um banco aparece, não quer dizer que a empresa abriu o cofre por amor à arte. Na maior parte das vezes, é puramente renúncia fiscal.

O mecanismo funciona assim: em vez de pagar 100% do seu Imposto de Renda para a Receita Federal, a empresa é autorizada pelo governo a destinar uma porcentagem desse valor direto para a conta de um filme. O governo abre mão de recolher o imposto para garantir a produção cultural, e a empresa atrela sua marca ao projeto sem tirar um centavo do próprio lucro.

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O “elenco principal”: quem é quem nas leis

Para fazer essa engrenagem rodar e conseguir o dinheiro, os produtores recorrem a um cardápio variado de leis e fundos públicos. Eis os nomes que quase sempre dão as caras na telona:

  • Lei do Audiovisual: É a grande protagonista do cinema nacional. Criada especificamente para o setor, é a principal ferramenta federal que permite às empresas abaterem do Imposto de Renda o valor investido na produção do filme;
  • Lei Rouanet: Oficialmente chamada de Lei Federal de Incentivo à Cultura, é a mais famosa do país. Embora seja muito lembrada por shows e exposições, ela também financia projetos audiovisuais, como festivais e certas etapas de produção, funcionando sob a mesma lógica de desconto no Imposto de Renda;
  • Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) / Ancine: Aqui não há isenção de imposto, mas sim dinheiro do próprio mercado. As empresas de telecomunicação pagam uma taxa chamada Condecine. Esse dinheiro vai para um cofre bilionário, o FSA, administrado pela Ancine, que reinveste o valor em filmes brasileiros. O logo do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul) costuma aparecer junto por ser o banco estatal que guarda e repassa essa verba;
  • Leis Estaduais (ICMS): Se o orçamento ainda não fechou, os produtores buscam os governos estaduais, que permitem que as empresas patrocinadoras abatam o valor do ICMS. Em produções paulistas, por exemplo, o selo do ProAC é figurinha carimbada. No Rio de Janeiro, usa-se muito a Lei do ICMS;
  • Leis Municipais (ISS/IPTU): As prefeituras entram com o abatimento de impostos locais. Na capital de São Paulo, o mecanismo se chama Pro-Mac, enquanto o Rio tem a Lei do ISS;

A regra do jogo é clara: para cada edital vencido e cada imposto redirecionado, uma nova logomarca ganha seus segundos de fama. Só quando essa longa matemática fecha é que o diretor pode, finalmente, ligar a câmera.