Juiz usa IA para redigir absolvição de estupro e esquece comando no texto: ‘melhore’

Após vazar 'instrução' para robô em processo sigiloso, o magistrado passou a ser investigado também por denúncias de abuso sexual

Um relator brasileiro pediu ajuda da inteligência artificial para corrigir um texto jurídico

Um relator brasileiro pediu ajuda da inteligência artificial para corrigir um texto jurídico | Pexels

A decisão da Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG) que absolveu um homem de 35 anos acusado de estuprar uma menina de 12 anos ganhou novos desdobramentos. Além de conter um comando direcionado a uma ferramenta de inteligência artificial (IA), o relator do caso, o desembargador Magid Nauef Láuar, passou a ser investigado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por denúncias de abuso sexual.

O julgamento ocorreu na 9ª Câmara Criminal Especializada do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, por maioria de votos. O processo tramita sob sigilo por envolver menor de idade. O caso teria ocorrido em Indianópolis, no Triângulo Mineiro. As informações foram descobertas pelo Núcleo de Jornalismo da Globo.

Trecho com comando de IA

O voto do relator, com 60 páginas, manteve a frase “Agora melhore a exposição e fundamentação deste parágrafo”, direcionada à ferramenta de IA. Abaixo do comando aparecem o texto original e a versão reescrita. O trecho foi reduzido de oito para sete linhas, preservando o sentido do argumento.

No mérito, Láuar entendeu que havia entre o réu e a vítima “vínculo afetivo consensual, com prévia aquiescência dos genitores da vítima e vivenciado aos olhos de todos”, e votou pela absolvição. O desembargador Walner Barbosa Milward de Azevedo acompanhou o relator, enquanto a desembargadora Kárin Emmerich ficou vencida.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem entendimento consolidado de que consentimento da vítima ou eventual relacionamento não afastam o crime de estupro de vulnerável, previsto para menores de 14 anos.

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Investigação e novas denúncias

A repercussão se ampliou após a revelação, ao vivo, pela jornalista Adriana Araújo, âncora do Jornal da Band, de que o magistrado é alvo de investigação administrativa no CNJ por abuso sexual.

Segundo informações divulgadas no telejornal, o sobrinho do desembargador, Saulo Lawar, afirmou nas redes sociais que teria sido vítima de tentativa de abuso quando tinha 14 anos. Ele declarou que a situação só não se consumou porque conseguiu fugir. Em comentário na mesma publicação, uma mulher também relatou ter sido vítima do magistrado quando trabalhava para a família dele.

De acordo com o corregedor nacional de Justiça, o CNJ ouvirá ao menos duas pessoas que afirmam ter sido abusadas por Láuar. O órgão determinou a abertura de Pedido de Providências e solicitou informações ao tribunal e ao desembargador no prazo de cinco dias.

Em nota, o TJ-MG informou que recebeu denúncia de abuso sexual contra o magistrado e abriu procedimento interno para apuração.

Recurso e aposentadoria

O procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, Paulo de Tarso, anunciou que recorrerá ao STJ e, se necessário, ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a absolvição.

Outro ponto que gerou debate foi a informação de que, desde 2013, Magid Nauef Láuar recebe aposentadoria por invalidez permanente da Universidade Federal de Ouro Preto, embora tenha continuado a exercer funções públicas em outros cargos. O motivo do benefício não foi informado pela instituição.

Ao comentar o caso no telejornal, Adriana Araújo afirmou: “Na sexta-feira (20), eu disse aqui que o desembargador deveria ir para o banco dos réus se novas vítimas surgissem. E, para espanto de todos nós, surgem denúncias contra o próprio magistrado. A justiça não pode e dessa vez não vai ficar surda de novo”.