A intervenção humana amplifica o avanço do mar em cenários de novela da Globo

Obras mal planejadas em pontos icônicos como Copacabana, Ipanema e Macumba intensificam a destruição costeira no litoral do Rio de Janeiro

As interferências humanas no meio ambiente têm sido motivo para a destruição dos cenários litorâneos da Globo

As interferências humanas no meio ambiente têm sido motivo para a destruição dos cenários litorâneos da Globo | Reprodução/Globo

A preocupação com o chamado “avanço do mar” em regiões do litoral fluminense, que são famosas por serem cenários de novelas da TV Globo, como Paraty, Búzios, Copacabana e Leblon, é frequentemente ofuscada por visões catastrofistas. No entanto, a realidade por trás da erosão costeira e do risco de desaparecimento de faixas de areia passa menos pela dinâmica natural do planeta e muito mais pela interferência humana nessas áreas.

Segundo Marcelo Sperle, especialista em oceanografia da Universidade do Rio de Janeiro (Uerj), o planeta como um todo está superaquecido e, consequentemente, se tem elevação do nível dos mares, porém este fenômeno ocorre há milagres de anos, com registros geológicos e variações de até 5 metros acima e 100 metros abaixo do nível atual.

“O aquecimento das águas dos oceanos aumentam a possibilidade de grandes tempestades, grandes furacões que trazem também com essa grande evaporação das águas dos oceanos grandes inundações. Só que isso é um fenômeno normal, natural do planeta que o planeta já passou por isso milhares de vezes ao longo dos tempos geológicos “, comentou Sperle.

Desequilíbrio costeiro

O maior fator que intensifica a vulnerabilidade dessas praias é a remoção da vegetação de restinga e de manguezais para a construção de edifícios, quiosques e calçadões. Essas formações naturais atuam como amortecedores da energia das ondas, ressacas e tempestades.

“O que a gente pega do mar, ele toma de volta”, resume Marcelo Sperle, destacando que, ao retirar a proteção natural e construir em cima de áreas de amortização, os seres humanos invadem o mar, tornando as construções suscetíveis à destruição. A vegetação, se mantida, é capaz de dissipar a energia das ondas, protegendo a costa.

Confira abaixo as novelas caiçaras da TV Globo, conforme região

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Três exemplos famosos no Rio de Janeiro ilustram o problema

Ipanema/Leblon: A praia sofre com um déficit de quase 2 milhões de metros cúbicos de areia devido à retirada de sedimentos dragados do Canal do Jardim de Alah, que eram levados para a construção civil. Essa intervenção desequilibrou a dinâmica de areias, causando o “desaparecimento” temporário da faixa em certas épocas do ano, dependendo da ondulação.

Praia da Macumba: O caso mais dramático, onde quiosques e calçadões são constantemente destruídos. O local, cujo nome oficial é Praia de Sernambetiba, tem imagens chocantes da destruição causada pela ressaca, resultado direto da invasão do chamado prisma praial, construindo em áreas que deveriam ser preservadas para a absorção da força das ondas.

Copacabana: Curiosamente, a praia, em sua maior parte, é um exemplo de solução. A larga faixa de areia atual é resultado da primeira engorda artificial de praia do mundo, feita no Brasil no início da década de 70 para proteger os prédios da Avenida Atlântica, construídos sobre a antiga restinga. A porção onde o mar ainda avança (próxima ao Forte) é justamente onde essa alimentação artificial foi menos eficiente.

Outro ponto do litoral fluminense que exemplifica a intervenção humana é Atafona, no Norte do estado. Lá, o avanço do mar é severo e devastou quarteirões inteiros.

A causa direta é o represamento do Rio Paraíba do Sul, que impede o transporte de sedimentos (areias e lamas) que naturalmente reabasteceriam a praia. Sem esse aporte, o mar gradualmente “come” a costa.