Um programa que incentiva o plantio da palmeira-juçara — espécie nativa da Mata Atlântica e considerada ameaçada de extinção — será apresentado como modelo de política pública sustentável na COP30, conferência do clima da ONU que ocorrerá em Belém (PA).
A iniciativa reúne agricultores do litoral sul de São Paulo e demonstra como práticas de conservação podem caminhar ao lado do desenvolvimento econômico local.
O agricultor e oceanógrafo Caio Tancredi, morador de Peruíbe, encontrou na juçara uma atividade que une propósito e geração de renda.
“Esse é o bom da vida: trabalhar com o que a gente gosta. Quando você experimenta a juçara pela primeira vez, parece que é para a vida inteira. É uma missão proteger ela.”
Tancredi irá plantar seis hectares da espécie e, pelo Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), receberá R$ 38 mil ao longo de cinco anos. Além do incentivo financeiro, ele obtém renda com a venda da polpa, semelhante ao açaí amazônico, e com a comercialização de sementes.
No viveiro mantido por produtores locais, cerca de 500 mudas estão em fase inicial de crescimento. Após o transplante para áreas de conservação, as palmeiras levam de oito a dez anos para atingir o porte adulto e iniciar a frutificação.
O PSA já repassou mais de R$ 2 milhões a agricultores envolvidos no repovoamento da juçara, contribuindo diretamente para a recuperação da Mata Atlântica em áreas protegidas.
A iniciativa também mobiliza produtores mais antigos. Nicleto Silva, de 87 anos, também de Peruíbe, cultiva desde a infância e enxerga na juçara um elo entre natureza, cultura e subsistência.
“O palmito tem muita serventia. A gente vende a semente, a polpa, e os pássaros também dependem dela. Vale a pena plantar.”
As sementes que ele comercializa para a Fundação Florestal são utilizadas em projetos de restauração ecológica nas unidades de conservação da Mata Atlântica.
Por que a palmeira-juçara está ameaçada?
A palmeira-juçara sempre fez parte da cultura caiçara, usada como alimento e matéria-prima. O declínio populacional, porém, se intensificou entre as décadas de 1950 e 1970, quando o Brasil se tornou o maior exportador mundial de palmito. A exploração predatória ignorava o ciclo de vida da espécie, provocando seu colapso.
Segundo Caio Tancredi:
“A proibição da extração ajudou a conter o declínio, mas também marginalizou práticas tradicionais e gerou receio entre agricultores. A valorização da polpa — que mantém a árvore em pé — virou alternativa sustentável.”
Com o avanço do manejo sustentável, iniciativas como o PSA permitem o manejo legal e controlado, desde que haja reposição das plantas e manutenção de matrizes por hectare, reforçando a lógica de que conservar é plantar mais do que retirar.
O que é a palmeira-juçara?
A Euterpe edulis, conhecida como palmeira-juçara, tem papel fundamental na Mata Atlântica:
- Espécie criticamente ameaçada devido ao corte ilegal de palmito;
- Seus frutos alimentam mais de 60 espécies de aves, além de mamíferos;
- A polpa tem alto valor comercial e estimula práticas sustentáveis de cultivo.
COP30: foco em clima, Amazônia e bioeconomia
A COP30 será a primeira conferência do clima realizada na Amazônia e deve reunir mais de 50 mil participantes. Entre os temas centrais estão:
- Implementação do Acordo de Paris;
- Financiamento para adaptação e mitigação climática;
- Fortalecimento da bioeconomia e de comunidades tradicionais;
- Apresentação de soluções inovadoras, como o programa paulista da juçara.
Programa ganha projeção internacional
Ao integrar conservação da biodiversidade, geração de renda e participação comunitária, o programa desenvolvido no litoral sul paulista se torna referência em políticas públicas sustentáveis. Na COP30, a iniciativa será apresentada como exemplo de estratégia capaz de unir economia de baixo carbono, restauração ambiental e valorização dos saberes tradicionais.
