Entenda por que a ave que quer dominar o mundo se espalhou por todos os lugares

Espécie vem se multiplicando pela Baixada Santista após a pandemia, ocupando áreas abertas e revelando impactos do desmatamento

Se você não viu, ao menos deve ter passado bem pertinho dele, sem perceber

Se você não viu, ao menos deve ter passado bem pertinho dele, sem perceber | Bruno Neri/Arquivo Pessoal

O Tapicuru (Phimosus infuscatus) se espalhou por toda a Baixada Santista, por vários lugares de São Paulo e até em grande parte do Brasil. É muito provável que você já tenha visto um deles por aí, seja a caminho da escola ou do trabalho. 

Se você não viu, ao menos deve ter passado bem pertinho dele, sem perceber. Eles estão em todas as cidades e parecem dispostos a dominar o mundo.

Ah, não conhece? Então, preste atenção: ele é uma ave de porte grande, se comparado com um Bem-te-vi. Tem o bico longo, fino, ligeiramente curvado e de cor amarelo alaranjado que contrasta com o corpo negro.

Está bem fácil de ver nos dias de hoje e até em Santos tem, mas não vá pensando que era “molezinha” ver o bicho como nos dias atuais, não. O Tapicuru não dava essa “sopa” que dá hoje e, de acordo com os observadores de aves, ele começou a se espalhar pela região no período após a pandemia.

Entenda os motivos

Renee Leutz Lopes de Oliveira, bióloga e membro do Clube de Observadores de Aves de Santos (COA Santos), afirmou que é mais fácil observá-lo nos Jardins da Orla, isso para quem está em Santos. Assim como muita gente, ela tenta entender o que fez essa ave se espalhar pela região.

“Aqui em Santos, eles começaram a aparecer com mais frequência após o período da pandemia, principalmente nos Jardins da Orla. Em conversa com meu amigo, Leonardo Casadei, cogitamos o fato da ‘ausência’ humana ter feito com que eles dominassem as ruas da Baixada Santista.”

A bióloga disse também que o aparecimento dos Tapicurus por essas bandas parece estar diretamente relacionado ao desmatamento e falou sobre o registro da espécie em regiões onde antes não ocorria:

“Em Santa Catarina, por exemplo, o aumento populacional vem acontecendo em locais nos quais a Floresta Ombrófila deu lugar às pastagens e campos de arroz, favorecendo, de certa forma, a distribuição da espécie. Embora pareça muito interessante e ‘bonitinho’ avistar uma espécie nova com cada vez mais frequência, nem sempre é positivo, uma vez que está, infelizmente, ligada à degradação ambiental.”

Vale lembrar que Leonardo Casadei, citado por ela, é autor do guia de campo “Aves da costa da Mata Atlântica”, que teve a sua primeira edição lançada em 2020. São 312 páginas de encher os olhos e com dicas de locais para observar aves na Baixada (Expressão & Arte Editora).

No outro extremo da Baixada, o biólogo e ornitólogo Bruno Lima também falou que a espécie está presente em praticamente todos os lugares de Peruíbe e também tenta entender o motivo que fez com que a ave se destacasse:

“Eles começaram a ficar mais comuns durante a pandemia e é possível encontrá-los no jardim da praia, gramados, valas e campos de futebol. Como tem mais áreas abertas e desmatadas, essa espécie vai se espalhando.”

O também biólogo e guia de observação de aves Miguel Malta Magro, que mora em Santo André, disse que a ave também se espalhou pela sua cidade e tem uma teoria interessante a respeito da aparição em massa da espécie. 

Além de também citar o desmatamento, ele disse que a ave pode ter pegado um nicho que as outras aves da família, como o Curicaca (Theristicus caudatus) e o Coró-coró (Mesembrinibis cayennensis), não pegaram:

“Quando o Tapicuru chegou à cidade, ele acabou se adaptando a um nicho onde nenhuma outra ave da família dele está adaptada. Então, ele não concorre com ninguém, não compete com ninguém, e não tem um predador significativo para conter a população. Como é uma ave grande, ele acaba se reproduzindo muito rapidamente e tem uma oferta de alimento muito grande também, porque os vermes dos quais ele se alimenta, os passeriformes e outras aves urbanas não conseguem alcançar a profundidade que o Tapicuru consegue.”

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Estado de conservação

O Tapicuru está classificado como pouco preocupante na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) das espécies ameaçadas. 

Pode ser encontrado, além do Brasil, na Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Suriname, Uruguai e Venezuela. Quiçá, em breve, pousado no sofá da sua casa, diante do grande número de avistamentos.

Birdwatching

O birdwatching (observação de pássaros) está crescendo em todo o país e há na região do litoral de São Paulo excelentes pontos para observar variadas espécies. Por conta disso, muitas passarinhadas acontecem ao longo dos meses e elas são ideais para quem quiser voar neste mundo maravilhoso de cores, cantos e sons.

COA Santos

O COA Santos realiza todos os meses atividades de observação em diferentes locais da cidade, como a própria Orla da Praia, Jardim Botânico, Orquidário e praças. O intuito deles é levar a prática da observação e o conhecimento sobre aves ao maior número de pessoas possíveis. As saídas são gratuitas e abertas a todos os apaixonados pelos seres alados. As publicações acontecem no instagram @coa.santos. 

GOA Peruíbe

O Grupo de Observadores de Aves de Peruíbe (GOA Peruíbe) tem saídas oficiais todo segundo sábado do mês e outras saídas entre essas datas. As saídas são focadas em ensinar quem ainda está aprendendo a observação de aves, reunir quem já realiza essa atividade e ressaltar a ética na observação.