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Febre amarela: uma luta contra a doença, o medo e a falta de informação

Apenas 34 mil pessoas foram até um dos 128 postos de saúde integrados à campanha de Bertioga até Peruíbe

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07 FEV 2018Por Da Reportagem12h31
Apenas 34 mil pessoas foram até um dos 128 postos de saúde integrados à campanha de Bertioga até PeruíbeFoto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A campanha de vacinação contra a Febre Amarela começou na Baixada Santista no dia 25 de janeiro. Foram colocadas à disposição 1 milhão e 700 mil doses da vacina, ou seja, o suficiente para vacinar toda a população da região. E apesar do medo generalizado após as 44 mortes confirmadas desde janeiro de 2017, apenas 34 mil pessoas foram até um dos 128 postos de saúde integrados à campanha de Bertioga até Peruíbe. Os dados são do último domingo, 4 de fevereiro.

Sobre esta situação o médico Nelson Marfil, Endoscopista e especialista em Qualidade de Vida, e proprietário da Clínica Endocentro, afirma que é preciso bom senso para dar andamento na campanha. "Creio que não faltou planejamento, muito pelo contrário. Me parece que estão vacinando muito mais pessoas do que seria necessário, no sentido de tentar evitar o surgimento da febre urbana, que poderia ser algo realmente alarmante. Apesar da situação, não creio que a vacina da Febre Amarela devesse fazer parte do calendário de vacinação, mesmo porque a própria vacina tem alguns riscos, especialmente em idosos e imunodeprimidos. Até onde sei, temos em São Paulo três mortes confirmadas devido a reações à vacina e outras 9 em avaliação. Se pensarmos que, até agora, foram 61 mortes no Brasil pela doença (cerca de 40 delas em Mairiporã e Atibaia ), percebemos o que essa legião de pessoas tomando a vacina, muitas vezes sem a menor indicação, pode fazer com essa estatística".

Ainda segundo Dr. Marfil, a luta contra mosquitos transmissores de doença exige muito mais do que ações de combate. Falta, no fundo, um olhar mais atento no aspecto prevenção. "Vários fatores podem estar relacionados ao aumento no número de casos, desde o baixo investimento em saúde pública e melhores condições sanitárias, até o desmatamento, que aproxima os animais silvestres dos centros urbanos, aumentando o risco de transmissão. A tragédia de Mariana, como foi divulgado pela imprensa, pode estar relacionada ao surto, pois além da catástrofe ambiental, provocou stress e desnutrição entre os animais nativos da região, inclusive nos macacos, causando queda na imunidade dos mesmos, favorecendo a infecção pelo vírus da febre amarela, entre outros. Por aqui, é preciso lembar que estamos com condições climáticas favoráveis para novos surtos de Dengue, Chikungunya e Zica, doenças transmitidas pelo Aedes aegipty. A guerra contra o mosquito não pode parar nunca. Vale lembrar que Santos é a única cidade do litoral que praticamente atingiu 100% na coleta de esgotos. Nas cidades vizinhas o índice é muito baixo ainda. Além disso, a ocupação irregular de áreas de preservação e descarte de material orgânico na rede pluvial elevam muito o risco de várias doenças infecciosas.

TRATAMENTO

Enquanto a prevenção ainda não é a ideal, é preciso continuar investindo na fabricação de medicamentos e em pesquisa. Depois que a doença se estabele, o padrão de tratamento ainda é aquela considerado convencional. "Quanto a medicamentos, ainda não há um tratamento específico para a febre amarela, nem dengue, zika e chikungunya. Assim, é dado apenas tratamento de suporte com hidratação, antitérmicos e analgésicos. Além disso, não há como prever quais os pacientes evoluirão para as formas mais graves da doença, apesar de que, imunodeprimidos e idosos sejam os principais grupos de risco. No consultório recebo muitas perguntas de pacientes que estão muito assustados com a doença e procuro acalmá-los orientando corretamente o que fazer. Grosso modo, o mais importante é fazer uma prevenção primária destruindo os eventuais criadouros de Aedes aegipty, evitar ir a regiões de mata e com casos confirmados da doença. Utilizar repelentes à base de citronela, utilizar roupas que cubram a maior parte da superfície corporal em especial nos horários de pico da atuação dos mosquitos (pela manhã e ao entardecer) e principalmente cuidar da saúde, pois pacientes com o sistema imunológico competente têm menor risco de infecção por qualquer doença".

Dr. Marfil lembra ainda a importância de buscar a informação correta. E não somente acreditar em divulgações típicas das chamadas "fake news". "Acho importante falar sobre os mitos a respeito de alguns produtos que evitariam a picada do mosquito como o própolis, a tiamina (pertencente ao complexo B ) e o inhame. Não se tratam de medidas eficazes contra as picadas. Outro ponto é que não há motivo para alarme hoje aqui no litoral, pois não foi relatado nenhum caso da doença por aqui. Por isso, cuidado com o que divulgado em mensagens de texto e nas redes sociais.

A FEBRE AMARELA

A febre amarela é uma doença grave e tem dois tipos: a silvestre e a urbana. A silvestre, mais comum, ocorre nas matas onde existe o vetor, um mosquito chamado Haemagoghus. Quando contaminado ele transmite a doença para macacos, que ao serem infectados, acabam adoecendo; esse macaco doente pode ser picado por outro mosquito sadio, que passará a infectar outros macacos. O homem que frequenta essa mata pode ser picado pelo mosquito, passando a transmitir o vírus a mosquitos que o piquem. Já na doença urbana, não há casos descritos no Brasil desde 1942. Nesta situação é outro mosquito que transmite a doença: o conhecido Aedes aegipty, transmissor da dengue, zica e chikungunya. O homem contaminado é picado pelo aedes, que passa a transmitir a doença para outros seres humanos e assim por diante; é importante salientar que, tanto na febre amarela silvestre, como na urbana, o macaco e o homem é que transmitem o vírus para o mosquito e não há transmissão entre os mamíferos pelo contato apenas.

 

 

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