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Negros, favelados e da política

Movimento Frente Favela Brasil (FFB) reúne propostas voltadas à população negra e pobre do País

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13 JUN 2016Por Diário do Litoral11h00
Discussão teve início nas redes sociais da internet; movimento já mobiliza milhares de pessoas pelo BrasilFoto: deka carvalho/divulgação

A discussão é polêmica, mas tem explicação. Diante da crise ideológica e política que o Brasil enfrenta, grupos têm se reunido para debater a necessidade da formação de novos partidos que deem representatividade e visibilidade às pautas sociais. É o caso da Frente Favela Brasil (FFB). O movimento, que defende propostas voltadas à população negra e pobre, se fortaleceu nas redes sociais da internet e já mobiliza milhares de pessoas no País.

“A ideia de um partido de pretos e favelados é uma ideia onde cabem meus sonhos porque eu sou preta e de origem nas favelas, nos quilombos, nos espaços de resistência. Sonho com a criação de uma organização que seja inteiramente nossa e poderosa”, afirmou a estudante Bruna Tamires, de 23 anos, que participa das discussões da Frente Favela Brasil no Estado de São Paulo. A jovem está no último ano do curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP). Ela nunca foi filiada em partido político.

Bruna cresceu na periferia de São Paulo. Disse que, apesar de humilde, a família sempre lutou para que ela e o irmão tivessem melhores condições de vida. “Cresci sabendo que era pobre e tendo vergonha de ser preta, mas eles sempre buscaram garantir o melhor para mim e pro meu irmão. Meus pais sabem a vida da favela e do subemprego. Eu não”, disse a estudante.

Aluna de escola pública, passou no vestibular da USP e lá teve acesso a uma realidade desconhecida. “Para sobreviver eu me agarrei ao que eu rejeitava: minha negritude. Fiz amigos pretos e juntos aprendemos a conhecer a nossa cultura, a luta dos nossos ancestrais. Aprendi sobre imperialismo e colonização e de como as tentativas dos pretos de alcançar o poder foram sempre destruídas pelo sistema, sendo a última delas o Partido da Frente Negra Brasileira”, destacou.

Nilza Camillo trabalha como inspetora de alunos em uma escola estadual que atende 1.800 crianças de seis a 13 anos. O colégio fica próximo à entrada da favela de Cumbica, em Guarulhos. A comunidade abriga 800 famílias. Quando não está no serviço, a inspetora de alunos dedica seu tempo para proporcionar oficinas de dança para meninos e meninas daquela região. Ela também participa das discussões do movimento Frente Favela Brasil (FFB).

“Por ter consciência política e cidadã me sensibilizei demais com a omissão do poder público e da própria Secretaria de Educação. Não consigo ver injustiça e fome e não fazer nada. Estou sempre metida a resolver as coisas. Chamo até o Conselho Tutelar se for preciso”, afirmou Nilza. A inspetora de alunos tem dois filhos, é arrimo de família e tem uma história de superação.

Antes de morar em Guarulhos, Nilza atuou como ativista social em uma entidade da Zona Leste de São Paulo. Participou de um grupo de mulheres que discutia economia solidária na favela. “Fui filiada em partido e com eles aprendi a ter consciência política, mas me desfiliei quando me deparei com situações que não tinham nada a ver com o meu ideal”.

Grupo se organiza em São Paulo

As histórias de Bruna e Nilza foram contadas em uma reunião fechada do grupo que discute a organização da Frente Favela Brasil no estado de São Paulo. O encontro reuniu cerca de 30 pessoas. A maioria mulheres negras, jovens e que nunca participaram de partidos políticos. O desejo comum entre os participantes: mudança, empoderamento e efetivação das pautas da população negra e pobre do Brasil.
“Somos uma via real. As pessoas querem montar um partido para estar na mesma mesa e pautar o poder. Pautar o protagonismo e não a exclusão. Somos uma via real”, disse Celso Athayde, ativista social e um dos idealizadores da Frente Favela Brasil, durante o encontro promovido na capital paulista. Ele tem percorrido diversos estados brasileiros discutindo a organização do partido.  

Assinaturas. Para a Frente Favela Brasil se tornar um partido é preciso reunir pelo menos 510 mil assinaturas em nove estados diferentes para se cadastrar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O número corresponde a 0,5% do eleitorado. A ideia do grupo é chegar a 15 milhões de adesões.
Ainda estão sendo definidos a ideologia, o programa e o estatuto da FFB. O lançamento do partido está programado para o dia 28 de julho, no Morro da Providência, primeira favela formada no Brasil. O recolhimento de assinaturas deve ter início em agosto.
No Brasil, há 106 milhões de negros, 15 milhões de favelados. Desse total de moradores de favelas, 87% são negros.

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