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Crimes contra o patrimônio fazem 1 vítima em SP a cada 30 segundos

Entram nessa conta furtos, roubos e latrocínios (roubos com morte). De carro a celular, incluindo roubos a banco e roubos de carga

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13 AGO 2017Por Folhapress14h30
Em números absolutos, foram 512.459 registrosFoto: Divulgação

Vítima de roubo em fevereiro passado, a empresária Gabriela Almeida, 46, decidiu participar de um protesto contra o aumento da violência no Real Parque, bairro da zona oeste de São Paulo.

Ela se programou com antecedência, mas não conseguiu chegar ao ato, num sábado de julho. Naquele mesmo dia e horário, Gabriela precisou atender a uma urgência: socorrer o pai, vítima de roubo em sua casa no City Butantã, na zona oeste.

"Eu estava a caminho do protesto quando meu pai me ligou dizendo que havia acabado de ser assaltado na casa dele. Fui socorrê-lo. Tinham sido amarrados."

A experiência da família de Gabriela, classificada por ela como "desesperadora", é exemplo da epidemia de crimes patrimoniais vivida pela população de São Paulo e que fez uma vítima a cada 30 segundos no Estado nos primeiros seis meses deste ano.

Entram nessa conta furtos, roubos e latrocínios (roubos com morte). De carro a celular, incluindo roubos a banco e roubos de carga. Todos os crimes, enfim, que envolvem algum bem de valor.

Em números absolutos, foram 512.459 registros. A elevação em relação ao primeiro semestre do ano passado é pequena (0,3%), mas é a décima vez que se registra alta no Estado desde 2002, numa comparação entre os seis primeiros meses de cada ano.

O patamar desses crimes patrimoniais apresentou um salto de quase 70 mil registros em 15 anos no Estado, sob o comando do PSDB desde 1995 e atualmente sob a gestão de Geraldo Alckmin.

Mais do que simples contabilidades, os dados indicam também que esse tipo de crime mantém tendência de alta a despeito de mudanças de hábitos da população para escapar dos bandidos e, também, de seguidas trocas no comando da Secretaria da Segurança Pública do Estado.

Desde 2002, sete diferentes secretários foram nomeados para assumir o comando das polícias, mas nenhum deles conseguiu implantar uma política eficaz para redução de roubos e furtos em geral -ao contrário dos assassinatos, que estão em queda há pelo menos uma década em SP.

O atual secretário, Mágino Alves Barbosa Filho, está no cargo desde maio de 2016. Procurado, não falou sobre o assunto. Sua assessoria enviou nota em que atribui os dados a um fenômeno nacional.

Para especialistas de segurança, são exatamente os crimes patrimoniais -e não os homicídios- o principal termômetro para medir a eficiência do trabalho das polícias.

"Se tem um crime que depende da ação policial, principalmente da polícia ostensiva, é o patrimonial. É um crime muito de oportunidade. A presença da polícia na rua é o principal inibidor desse crime", diz o sociólogo Luis Flávio Sapori, coordenador do Centro de Pesquisas em Segurança Pública da PUC de MG.

Capital

Das 12 regiões do Estado, a capital concentra a maior quantidade de crimes patrimoniais. Em 2008, acumulava 37% dos crimes do Estado -hoje, representa 43%.

Na cidade, o distrito com maior incidência de roubos neste ano tem sido o dos Campos Elíseos, no centro. Para o delegado-seccional Marco Antonio de Paula Santos, responsável pela região, parte disso se deve à cracolândia, em especial antes de maio, quando houve uma operação policial contra a feira de drogas que funcionava a céu aberto.

Segundo ele, os criminosos roubavam e corriam para dentro do fluxo de viciados para se esconder. "Iam para lá para se proteger, porque a polícia normalmente não entrava lá. E, quando entrava, virava aquelas confusões."

O delegado também é responsável pela região dos Jardins e da av. Paulista. Em junho, foram 1.768 casos de furto na área, avanço de 196% em relação ao mesmo mês do ano passado (597). A polícia vincula esse aumento à parada LGBT, já que 1.152 dos registros foram no dia do evento.

"Não excluo a falha da polícia não, mas, por outro lado, temos um comportamento das pessoas que também facilita esse resultado: no relaxamento no cuidado de seus bens", disse o delegado, para quem 40% dos crimes patrimoniais envolvem smartphones.

Rodrigo Salles, presidente do conselho de segurança dos Jardins e av. Paulista, também culpa a população.

"Infelizmente, a população não está fazendo a parte dela. Por exemplo: a pessoa, 11 horas da noite, com celular no ponto de ônibus. Vem um rapaz de bicicleta e pimba! Leva  embora. É questão de bom senso", diz Salles.

Vítima de roubo em julho, a publicitária E.P., 47, moradora do Real Parque (e que prefere não divulgar seu nome por temer represálias), rebate. "Não acho que é culpa da vítima. Você não vai pra França e anda falando com celular sem medo? Aqui estamos à mercê. Vulneráveis."

Outro lado

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse, por meio de nota, que o aumento dos crimes patrimoniais é uma tendência nacional e, em relação ao Estado, que os dados do semestre sinalizam uma estabilidade.

A pasta ressaltou a redução nos casos de roubo e furto de veículos (8,59% e 6,09%, respectivamente). "A taxa de roubos e furtos em relação à frota (100 mil veículos) em 2016 representa queda de 63,4% na comparação com 2001."

O governo paulista diz ainda que a segurança no Estado é planejada a partir de estudos das "manchas criminais" e com "operações especiais para combater os crimes contra o patrimônio".

Esse trabalho, segundo a secretaria, "resultou na prisão ou apreensão em flagrante de 77.564 pessoas de janeiro a junho".

Desde a última quarta (9), a reportagem solicita entrevista com o secretário da Segurança, Mágino Alves Barbosa Filho, mas, segundo sua assessoria, ele não encontrou tempo em sua agenda para isso.

A pasta indicou, na última sexta (11), o delegado Antônio José Pereira, do Deic (departamentos de roubos), para que falasse com a reportagem em nome da secretaria.

Titular da delegacia especializada em latrocínios, o policial desistiu, porém, dar entrevista ao tomar conhecimento do teor das perguntas. Disse que só o próprio secretário poderia falar sobre políticas de Estado.

Entre as perguntas enviadas ao secretário, a reportagem questionou a razão de São Paulo não conseguir reduzir os crimes patrimoniais, assim como fez com assassinatos.

Também questionou qual foi a principal política implantada por ele em seu primeiro ano à frente da pasta da segurança. Não houve resposta.

Mágino assumiu o cargo em maio do ano passado -após a saída do então secretário Alexandre de Moraes, de quem já era secretário-adjunto.

Desde então, os roubos de carga, por exemplo, só cresceram. Foram, até agora, 13 meses seguidos de elevação. Os roubos em geral também tiveram dez aumentos em 13 meses.

No mês passado, durante a apresentação de dados estatísticos, o secretário classificou os latrocínios como a segunda maior preocupação -atrás apenas de homicídios intencionais.

"A gente tem trabalhado incessantemente para tentar reduzir esse indicador [de latrocínio], que esteve em queda durante um largo período, agora vem registrando um  acréscimo nesse indicador que é preocupante."

Ele continuou. "Reforçar o policiamento. Isso a gente tem feito bastante, reforçando o policiamento em zonas onde a gente mapeia a ocorrência desse tipo de crime."

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