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Papo de Domingo: ‘Não precisa crer em reencarnação para fazer terapia de vida passada’

Um mistério que intriga a humanidade século após século é se a reencarnação existe ou não. Viver, morrer, renascer, voltar a viver para expiar os erros do passado e assim evoluir seria, de fato, o nosso destino?

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14 OUT 2018Por Bárbara Farias09h15
O neuropsicólogo e professor Davidson Lemela, pós-graduado em Terapia de Vidas PassadasFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Um mistério que intriga a humanidade século após século é se a reencarnação existe ou não. Viver, morrer, renascer, voltar a viver para expiar os erros do passado e assim evoluir seria, de fato, o nosso destino? Ou relembrar as faltas e os traumas de outras vidas seria a cura para os problemas atuais aparentemente sem solução?

Mas, se a reencarnação existe por que não nos lembramos de nossas vidas passadas? Algumas religiões pregam a existência da reencarnação, mas muito além da fé, ou melhor, em paralelo aos preceitos religiosos, há a Terapia de Vida Passada ou Terapia Regressiva, que busca a cura através do resgate de memórias “esquecidas” no inconsciente. Se elas são memórias de vidas passadas de quem as busca, herança de experiências vividas por um ancestral ou simplesmente imaginação não se sabe. Talvez, a verdade jamais seja desvendada, talvez a reencarnação jamais seja comprovada. 

Porém, segundo o neuropsicólogo e professor Davidson Lemela, pós-graduado em Terapia de Vidas Passadas pela Sociedade Brasileira de Terapia de Vidas Passadas (SBTVP), não importa se as histórias contadas pelos pacientes na TVP são reais, importam as marcas e as emoções que essas memórias deixam impressas na mente ou, quem sabe, no espírito. Seriam essas impressões no que muitos chamam de alma o atalho para a cura de inúmeros problemas de saúde, físicos e psicológicos?

Embora seja espírita, Davidson Lemela ressalta que a religião nada tem a ver com o seu trabalho voltado à Terapia de Vida de Passada. E ele garante: a TVP cura.   

Davidson Lemela – Quando a gente fala em reencarnação, em vidas passadas, as pessoas sempre associam à religião: espiritismo, hinduísmo, budismo, que são religiões reencarnacionistas. Mas a reencarnação não é uma propriedade da religião. A reencarnação é uma lei natural, assim como a lei da gravidade, que não é uma propriedade da ciência. Todos reencarnam. O trabalho que eu faço aqui tem como hipótese científica a reencarnação.  

Diário -  O que é a Terapia de Vidas Passadas?

Lemela – É uma abordagem psicoterápica que tem como hipótese científica a reencarnação. Essa terapia admite que nós no passado vivemos muitas experiências reencarnatórias. Existem personagens nossos do passado que viveram histórias que não ficaram bem resolvidas, que ficou alguma coisa pendente, essas histórias não estão esquecidas. Você está vivendo aquelas histórias hoje na vida atual. É como se aquele personagem seu lá do passado, que viveu na Idade Média, por exemplo, estivesse com você aqui hoje. E, muitas vezes, ele interfere na sua vida. Aquele personagem do passado interfere na sua vida atual. De repente você tem atitudes na vida, emoções, e se pergunta: nossa, por que eu falei isso? Por que eu agi desse jeito? Não tem nada a ver comigo. É por que esse passado não está no passado, está no presente. Então, na terapia eu vou ajudar o paciente a se lembrar de algumas dessas histórias que estão lá no inconsciente dele, que ele não se lembra, mas que estão interferindo na vida dele hoje, então eu vou ajudar o paciente a se lembrar e aí ele vai descobrir, através dessa lembrança, o quanto que esse personagem, essa história, está interferindo na vida dele hoje. Então, por mais paradoxal que possa parecer, o paciente vai se lembrar do passado justamente para esquecer-se dele.  

Diário – De que forma a terapia ajuda o paciente?

Lemela – A gente descobre o que ele precisa mudar ou parar de fazer hoje, o que ele já fazia lá (no passado) e que não deu certo. Mudar o padrão de comportamento. O paciente vivia situações no passado que ele está repetindo hoje, então existem alguns padrões de comportamento bem marcantes, como os de pessoas que usam álcool, drogas, suicídio, desregramento sexual. Sempre existe uma tendência de a gente vir repetindo essas coisas, que, às vezes, é difícil desligar delas. A gente leva vidas para se desligar delas. 

Diário – A Terapia de Regressão à vidas passadas é indicada para quais problemas de saúde?

Lemela – Qualquer problema, até físicos, como dores de cabeça crônicas, enxaquecas. 

Diário – Durante a terapia, o paciente se vê na situação da vida passada ou como um espectador que apenas assiste aos eventos “relembrados”?

Lemela – A maior parte dos paciente sente intensamente o passado, sente como se aquilo tudo estivesse diante dela e ela estivesse assistindo de olhos abertos. Então, os pacientes se emocionam, às vezes choram, sentem aquela dor. Há casos até que eu preciso dizer para o paciente: olha, você não precisa sofrer de novo. Isso já aconteceu no passado, você já sofreu, agora você está só se lembrando. Para a pessoa sair da dor, do trauma, da tragédia. Às vezes, mesmo ela vendo (a situação) como uma espectadora, na terceira pessoa, mesmo assim ela se emociona como a situação que o personagem está vivenciando.  

Diário – Há pacientes que têm receio de fazer a Terapia de Vidas Passadas?

Lemela – É uma pergunta frequente que eles fazem. Não tem perigo de isso me traumatizar, me angustiar, me fazer sofrer? Eu falo assim: mas isso já está te fazendo sofrer hoje. Isso já está perturbando a tua vida. Nós vamos trabalhar isso conscientemente. Na terapia, não basta apenas você se lembrar do passado, é importante que você trabalhe aquele conteúdo que trouxe do passado. Essa é a grande sacada da terapia. O paciente traz a história, o drama, a tragédia, a dor, e aí a gente vai trabalhar aquela história, por mais difícil que tenha sido, de forma terapêutica. 

Diário – A Terapia Regressiva cura? 

Lemela – Sim, cura. Na terapia de vidas passadas nós trabalhamos com cura e com alta. A terapia tem um tempo para durar, que varia de seis meses a um ano. 

Diário – O paciente precisa acreditar em vidas passadas para fazer a Terapia Regressiva?

Lemela – Não. Se ele quiser achar que tudo aquilo que ele contou é fruto da imaginação dele, fantasia, tudo bem, funciona do mesmo jeito. O importante é que o inconsciente trouxe aquele conteúdo, aquelas imagens, aquelas emoções e nós vamos trabalhar aquilo para ajudá-lo hoje.  

Diário -  Todos os seus pacientes são espíritas ou você tem pacientes de outras religiões?

Lemela – A terapia funciona, independentemente se o paciente acredita em reencarnação ou não. Às vezes, vêm pacientes aqui que são evangélicos, católicos. Tem pacientes que não acreditam em nada. Eu atendi um paciente uma vez, ele era auditor da Receita, era um cara muito inteligente, muito racional. Sabe aquele cara que tem que ter explicação pra tudo? Ele veio aqui com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), ele já estava com mania de se contaminar, se apertava a mão de alguém tinha que lavá-la, e a coisa foi se intensificando de tal forma que ele não conseguia mais sair de casa. Ele chegou num ponto que mesmo em casa, com a esposa dele, fazendo a comida dele, ele ficava mexendo a comida com o garfo, olhando pra ver se não tinha nada, foi aonde chegou o TOC dele.

E foi nesse ponto que ele chegou aqui na terapia. Na primeira regressão que ele fez, ele contou uma história que ele vivia numa cidadezinha do Oriente Médio. Ele disse que vivia na rua, mendigando, às vezes roubando fruta no mercado. Um dia, as autoridades o prenderam por furto e, na prisão, ele ficou numa cela abarrotada de gente. Quando ele saiu da prisão, contraiu lepra. Naquela época a lepra não tinha cura, então começou a cair pedaços do nariz, da orelha, começou a aparecer manchas no corpo, feridas. Daí as pessoas começaram a ficar com nojo dele, e ele começou a se esconder. Até que um dia, a situação dele se agravou tanto que puseram fogo nele e ele morreu queimado.

Ele contou essa história. Ele viveu aquilo intensamente, até gemia aí na poltrona. A terapia terminou. Ele, que é um cara extremamente racional, falou assim pra mim: “Mas eu vivi essa história?”. Eu disse: “Bom, você que me contou ela, né?”. Ele falou: “Que prova você me dá que eu vivi essa história?”. “Nenhuma”, eu disse. “Mas, então, eu posso ter inventado tudo?”, ele perguntou. “Pode”, eu disse a ele. Então, eu perguntei pra ele assim: “Você está aqui na terapia querendo obter provas que já viveu outras vidas ou está aqui para se tratar?” Ele disse: “Eu estou aqui para me tratar”. Eu disse: “Então, não se preocupe porque o que garante a autenticidade da história é a autenticidade que ela produz”. E ele se curou. 

Diário – E as “presenças” que alguns pacientes relatam perceber ou sentir durante a regressão? Um suposto espírito, alguém do passado que vem acertar suas contas com a pessoa. Você já se deparou com essa situação aqui no seu consultório?

Lemela – Isso é mais comum do que você imagina. É um capítulo à parte na terapia de vidas passadas. Essas presenças são os nossos desafetos do passado. Pessoas que em outras vidas nós prejudicamos, roubamos, abandonamos, traímos, enganamos, mentimos, ficaram com raiva da gente. E essa pessoa ainda nutre essa raiva da gente e pode nos achar. E aí vai montar um processo de perseguição, de vingança. E vai ficar atrás da gente. É o que lá no centro espírita a gente chama de obsessor. É difícil um paciente que faz terapia aqui e que não aparece uma presença. Pelo menos uma presença aparece. Se o paciente está vindo aqui na terapia é porque ele acredita na hipótese de que os seus problemas tem a ver com o passado, nós temos que admitir também que nesse passado nós fizemos coisas boas e ruins e que podemos ter prejudicado pessoas e que essas pessoas podem não ter se esquecido da gente ainda, e se estiverem desencarnadas vão estar atrás de nós hoje. 

Diário – Você percebe essas presenças durante as sessões?

Lemela – O paciente está ali sentado na poltrona, contando uma história. Daí, de repente, o paciente fala que está sentindo um aperto no peito, um arrepio no braço, e eu pergunto se isso tem a ver com a história que ele está contando. Se o paciente diz que não tem a ver com a história eu pergunto se tem a ver com algo que está na sessão e ele me diz: acho que está aqui. Aí, eu vou pedir para o paciente entrar em contato com a presença que está aqui, contato mental. Ele vai conversar com ela e eu vou ser o intermediário. Eu vou dizer o que ele precisa perguntar. Ele vai descobrir quem é essa presença que está aqui na sessão. Se essa presença está aqui é porque ela foi trazida. Se ela foi trazida na hora da sessão de regressão do paciente é porque existe uma possibilidade de um entendimento entre eles. 

Diário – E essas presenças são trazidas por quem?

Lemenda – Outras presenças boas, que admitiram ela na sessão porque existe uma possibilidade de eles (paciente e a presença) se entenderem e eu vou explorar essa possibilidade. Nós vamos descobrir, através do diálogo que ele vai estabelecer com ela mentalmente, e tem pacientes que vêem a presença nitidamente, a gente vai descobrir quem é a presença, o que quer com ele, por que está na vida dele, o que ele fez para a presença na outra vida e, então, o paciente vai pedir perdão para ela. 

Diário - Você vê essas presenças no seu consultório?

Lemela – Eu não vejo, mas eu sinto. Não falo nada porque eu não posso induzir o paciente. Eu não posso induzir nada, nem na história. Eu faço as perguntas, vou ajudando a pessoa a contar a história, sem induzi-la.

Diário – Em cada sessão de regressão, o paciente se lembra de uma história só ou várias?

Lemela - Em cada sessão de regressão que a gente faz, ele (paciente) vai contar uma história, de uma vida passada. Aí a gente vai explorar todos os aspectos importantes daquela história: o que ele fez, o que passou, como viveu aquela vida e como morreu. Terminou aquela sessão, na outra sessão, ele vai contar outra história. Até terminar a terapia são umas dez sessões de regressão, então são dez histórias. 

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