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Papo de Domingo: Microcontos escritos em rede social se transformam em livro

Nesta edição de Papo de Domingo, o ‘Marcão’, como é chamado por amigos e alunos, fala sobre o seu novo livro e como surgiu a ideia de montar uma editora focada em publicar autores da Baixada Santista.

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16 SET 2018Por Vanessa Pimentel11h02
O jornalista, escritor e professor universitário Marcus Vinicius Batista (Marcão).Foto: Divulgação

O número 140 se tornou especial em 2018 para o jornalista, escritor e professor universitário Marcus Vinicius Batista. Talvez ele não ­imaginasse isso em 2009 quando, instigado por um amigo, se desafiou a contar histórias com começo, meio e fim no Twitter, rede social que permitia apenas 140 caracteres por postagem.

Quase 10 anos depois, as pequenas histórias saíram do mundo online para preencher as páginas de seu novo livro “A vida começa aos 140”, que será lançado no dia 23 de setembro (domingo), às 16 horas, no Salão Verde da Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos. Na mesma data, o designer e professor André Reis também lança a sua obra, intitulada “Tempos de Design”. 

Os dois exemplares são lançamentos da Editora Ateliê de Palavras, outra empreitada de Marcus que, ao lado da esposa e jornalista Beth Soares, organiza histórias - antes engavetadas por amigos talentosos - em livros que ganham o país. Com três anos de existência, a editora já divulgou 12 autores em 15 livros. 

Nesta edição de Papo de Domingo, o ‘Marcão’, como é chamado por amigos e alunos, fala sobre o seu novo livro e como surgiu a ideia de montar uma editora focada em publicar autores da Baixada Santista. 

DL – Seu novo livro “A vida começa aos 140” foi inspirado pelo Twitter. Ainda mantém seu perfil por lá ativo? 

Marcus – Eu tenho Twitter há uns oito anos e ainda o mantenho. Comecei a escrever com 140 caracteres porque era o que cabia ali, não podia estourar e para mim era uma experiência de texto - tinha que ser curto, conciso, coeso, sem gordura.

DL – É mais difícil escrever com apenas 140 ­caracteres?

Marcus – Na verdade te ensina a dar valor para a palavra. Cada uma delas precisa ser escolhida com muito cuidado porque senão não cabe e a ideia não pode ficar incompleta. Ajuda a perceber que muito do que a gente escreve é gordura, é coisa que pode ser tirada, que pode ser limpa. É uma experiência de linguagem: experimentar dizer o máximo possível de coisas em pouco espaço. 

DL – Há uma discussão hoje em dia sobre uma possível relação com o tamanho dos textos publicados na internet e o número de pessoas que param para ler. Ou seja, textos curtos teriam ­preferência online. ­Acredita nisso? 

Marcus – Eu acho que as pessoas leem muito, mas de uma maneira fragmentada, desconcentrada, que é essa leitura da conectividade, de ler no celular. É aí que eu acho – e talvez seja o ponto mais importante – que cada texto tem o seu lugar.

Há uma dificuldade em relação ao tamanho do texto pelo fato de o sujeito ler em um objeto chamado celular, o que não facilita uma leitura longa. É como se o texto maior fosse um intruso naquele aparelho. Por que eu penso assim? Porque eu vejo na faculdade gente que só lê coisas no celular e lê muito pouco, mas às vezes esse mesmo cara está com um livrão de 500 páginas que ele devora. Eu entro na sala de aula e vejo muitos alunos com livros, ainda. Então eu acho que é um pouco a questão do lugar, que é o que faz, por exemplo, os jornais e as revistas ­ sofrerem. O objeto não está mais na mão de muito leitor. 

DL – Os microcontos parecem ideais para a leitura online, já que podem ser lidos em segundos. Por que transformá–los em livro?

Marcus – É que para mim o livro é essencial como vida. Na internet tem aquela perda, o cara não vai procurar na sua ‘timeline’ um conto que ele leu há dois anos, então o livro vem para organizar. Mas, como ele nasceu dessa experiência online fizemos tudo para mesclar as duas formas de ler. O design gráfico foi pensado por causa dos 140 caracteres; é um livro pocket; tem ilustrações em todos os contos; a orelha e a epígrafe têm 140 caracteres; ele é todo mais enxuto para poder atender à sua origem de criação. 

Não sei se o leitor vai sacar isso... Eu fiz um texto de apresentação para explicar, mas eu não sei se ele vai pegar todas essas nuances. E não há problema nenhum se ele pegar ou não, mas a gente fez um livro entendendo essa relação da tecnologia e redes sociais com o mais antigo, que é o livro. É uma forma de mostrar que é possível as duas coisas acontecerem ao mesmo tempo como projeto de literatura. 

DL – Você escreveu 160 microcontos e escolheu 140. Por que não os 160?

Marcus – Por causa dos 140 caracteres. Os 140 não são uma ditadura em cima do texto, mas ele é uma referência do processo de criação dessa linguagem então eu achei que a gente tinha que levar esse 140 mais a ferro e fogo. Então ele está no título, nos 140 contos escolhidos e em cada texto. O que a gente fez foi tentar esse diálogo entre livro e internet. Por exemplo: se o conto de número 7 não foi selecionado para estar no livro, o leitor perceberá a falta dele pela sequência numérica. E por que isso? Porque caso ele tenha interesse em saber qual é o conto de número 7, ele pode ir no blog e ler por lá. É uma forma de manter o diálogo entre as duas plataformas.

DL – Como surgiu a ideia de montar a editora Ateliê de Palavras?

Marcus – Eu e Beth começamos a amadurecer a ideia durante o processo de edição de “Quando os mudos conversam”, onde aprendemos a preparar um livro. Percebemos também que com o avanço tecnológico, basicamente com a internet e os softwares, a gente podia fazer livros de qualidade sem precisar de grandes espaços físicos. Então tivemos a ideia de criar a Ateliê de Palavras para que a gente pudesse publicar pessoas da região que conhecíamos, que dávamos valor, mas que não conseguiam publicar seus trabalhos por muitos motivos. 

DL – Quais?

Marcus – Muitas vezes não encontravam editoras ou não conseguiam cumprir as exigências do mercado de São Paulo, ou até mesmo por desconhecimento e aí acabavam com seus livros na gaveta e eu e Beth ­sabíamos ­disso.  

DL – É difícil publicar um livro? O processo ­logístico?

Marcus – É um processo que leva alguns meses porque começa com a discussão sobre o projeto, a entrega dos originais para que a gente possa trabalhar o texto e aí eu e Beth nos ­dividimos em várias funções. Eu ­normalmente pego o livro no começo, ela faz o processo de edição e ele  volta para mim no final, no acabamento. Unimos conhecimento e força para fazermos parte de todas as etapas. 

O único momento que a gente contrata alguém é para fazer o trabalho de capa. Tem ainda a parte da gráfica, uma discussão sobre o melhor momento para lançar, então é um processo que dura uns seis meses. Dá para fazer em menos tempo, depende de como o projeto está. “A vida ­começa aos 140” levou dois meses porque o ­material já estava pré–selecionado. Já o livro do André, como é sobre design, tinha alguns detalhes que eram mais lentos, como a capa e o interior. 

DL – Como está sendo a experiência de ter uma editora?

Marcus – Está dentro do que a gente esperava. Nós temos outras atividades profissionais, fizemos algumas adaptações, mas a nossa ideia é permanecer desse tamanho. Isso nos dá a vantagem de escolher o projeto e com quem vamos trabalhar. Fazemos aquilo que a gente dá conta. Teve ano que lançamos seis livros, em outros fizemos três. Tudo depende do projeto. 

DL – O enfoque é publicar autores da região...

Marcus – Para nós tem sido um critério importante.

DL – Por quê?

Marcus – Proximidade. Eu conheço a pessoa, posso tratar com mais facilidade, acompanhar todo o processo com calma. É mais fácil, dá menos dor de cabeça. E uma coisa é o autor ser daqui, outra coisa é o livro. Um exemplo é o livro do DaCosta que está quase esgotado, metade fora da região. Boa parte da venda do livro de Blues, do Eugênio, também foi para fora porque não é um livro de caráter regional. Tem o do Gabriel, “Uma Estrela na Escuridão”, que conta a história do único brasileiro sobrevivente do Holocausto e vende no país inteiro, teve até uma segunda impressão. 

DL – Trabalhar com autores da região exclui autores de outros lugares que queiram procurar pela editora ou não?

Marcus – Não, foi circunstancial. A gente acha que é importante, num certo sentido, trabalhar com os amigos. Se eles são bons naquilo que fazem, acho que facilita o trabalho. 

DL – Vendas através da internet?

Marcus – Basicamente, porque assim alcançamos o Brasil inteiro. 

DL – Mais algum lançamento para este ano?

Marcus – Sim, até o fim do ano pretendemos lançar mais um do Maurício Zomignani.

 

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