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‘Os valores estão em declínio’

OLHARES SOBRE O NOSSO TEMPO. Secretário de Educação do Estado fala sobre a importância da humanização

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13 AGO 2017Por Rafaella Martinez11h00
Secretário da Educação do Estado de São Paulo, José Renato NaliniFoto: Divulgação

‘Estamos no caminho certo?’. Com essa indagação, o atual secretário da Educação do Estado de São Paulo, José Renato Nalini, escreveu um artigo neste mês, onde questiona os dias atuais e a urgência de adotar uma prática humanista e humanizadora para além do saber, da informação e da técnica. Os questionamentos do secretário são também a base da série especial ‘Olhares sobre o nosso tempo’, onde o Diário do Litoral conversa com especialistas nas mais diversas áreas, além de representantes de religiões.

Esse espaço é aberto para que os leitores possam encaminhar suas sugestões de perguntas e fontes, além de comentários sobre as entrevistas já publicadas. Basta interagir conosco em nossa página: www.facebook.com/diariodolitoral.

José Renato Nalini, o entrevistado desta edição, foi presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo até 2015. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da PUC-Campinas, é mestre e doutor em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da USP.

Como professor, leciona desde 1969, quando começou no Instituto de Educação Experimental Jundiaí (atual E.E. Bispo Dom Gabriel Paulino Bueno Couto), dando aula de Sociologia em aperfeiçoamento para professores. É ainda especialista em formação, preparo, educação e seleção de juízes, tendo colaborado com a Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados.

Durante sua presidência no TJ-SP,, Nalini foi responsável pela modernização do Judiciário paulista, através da informatização de procedimentos.

Confira seu olhar sobre o nosso tempo na entrevista a seguir.

Diário do Litoral - Primeiramente, gostaria de pedir uma análise dos nossos dias atuais. Como o senhor enxerga o momento que estamos vivendo?
José Renato Nalini -
Não imagino o que a posteridade, daqui a 200 anos, dirá de nossa era. Aparentemente, enfrentamos uma acelerada e profunda mutação que torna a incerteza a única certeza com que se pode contar. O inesperado nos surpreende a cada momento. É impossível fazer previsões. Por vezes sinto que o velho resiste, mas é empurrado pelo novo. E os valores estão em declínio, acentua-se a insensibilidade, o egoísmo, o individualismo, o consumismo, o hedonismo e outros “ismos”, quase todos nefastos para aprimorar o grau civilizatório da ­humanidade.

Diário do Litoral - O senhor ocupa um dos cargos mais importantes do Poder Público: o de secretário de Educação de São Paulo. Como o senhor acredita que a educação pode modificar esse cenário de desesperança?
José Renato Nalini -
A educação é a chave para a resolução de todos os problemas. Não há dificuldade que não possa vir a ser superada pela educação de qualidade. Ela é suficiente para assegurar saúde, convívio pacífico, desenvolvimento econômico, proteção ao meio ambiente e conversão do homem ao humanismo. Ocorre que a educação é direito de todos, mas dever do Estado, da família e da sociedade. A constatação de que a proximidade da família junto à escola consegue êxitos insuspeitos, é a certeza de que se deve insistir no chamamento dos pais, para que auxiliem a missão educacional. Escola em que os pais estão presentes é escola preservada, que respeita professores, que consegue avaliações exemplares e que forma cidadãos aptos e felizes.

Diário do Litoral - Ter ‘a caneta na mão’ auxilia na forma de pensar políticas públicas para a nova geração?
José Renato Nalini -
Hoje a responsabilidade é difusa. A educação é uma política permanente, supra-estatal. É uma política humanitária. Só conseguirá atingir suas metas se conseguir mobilizar todos os seres pensantes. Por isso a insistência no projeto de Gestão Democrática, para dar vez e voz a todos os que se interessam pela educação de qualidade. A começar do próprio estudante, que tem direito de se manifestar sobre a escola que ele considera ideal e se propor a auxiliar a comunidade a implementar esse modelo.

Diário do Litoral - O senhor acredita que precisamos retornar os ensinos humanitários nos bancos escolares para preparar a nova geração?
José Renato Nalini -
Evidente. Essencial. É um verdadeiro truísmo. Transmitir informações, fazer com que o aluno assimile um crescente acervo de dados, todos eles localizáveis no mundo digital, já não condiz com os objetivos mais saudáveis da educação. Em lugar de excessiva preocupação com os resultados obtidos nas avaliações, técnicas e sofisticadas, deve-se o educador preocupar com tornar o estudante mais feliz. O que falta à humanidade é compreensão, compaixão, sensibilidade, ternura, amor. A humanidade está imersa numa patologia melancólica. Por falta de amor. E amor passou a ser uma categoria jurídica. Precisa ser levada a sério pelos verdadeiros educadores.

Diário do Litoral - Como o senhor define a ética? Esse conceito é originado das nossas experiências ou da nossa formação escolar?
José Renato Nalini -
Ética é a ciência do comportamento moral do homem que vive em sociedade. Na verdade, ética é a ciência da boa conduta. Daquela conduta irrepreensível, que não machuque ninguém, que não fira ninguém, mas que torne feliz não apenas aquele que se comporta eticamente, mas todos aqueles com os quais ele convive. A escola pode estimular o apuro da consciência ética. Mas há quem sustente que ética não se ensina. Ou se tem, como algo intuitivo, ou apenas se conseguirá implementá-la mediante adoção de um sistema sancionatório que iniba condutas incompatíveis com os códigos de ética.

Diário do Litoral - O senhor acredita que com uma base mais sólida a nova geração será capaz de ‘regenerar’ a sociedade?
José Renato Nalini -
Tem-se a impressão de que se chegou ao fundo do poço. E ele se mostra interminável. Mas o descompromisso com o bem, o pacto com a solidariedade e a fraternidade foi tão vulnerado, que é impositivo acreditar que só podemos retomar o caminho de volta. É urgente resgatar os valores, mostrar que eles são absolutos e imperecíveis e tentar reconstruir este tecido esgarçado e melancólico de uma anomia que assusta e prenuncia um futuro sombrio.

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