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Experiência Quase Morte desafia a ciência

Para a ciência a morte é o fim, já que a vida existe apenas quando há atividade cerebral

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01 OUT 2017Por Vanessa Pimentel10h00
O médico e escritor Dr. Edson Amâncio, renomado nome da neurociência brasileira, com ampla experiência médica internacional e integrante do corpo clínico do Hospital Albert Einstein é um dos profissionais mais reconhecidos mundialmente quando se fala no tFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Dizem os filósofos que nada é certo na vida, só a morte. O pensamento, porém, não alimenta os curiosos que teimam em se perguntar o que acontece quando a vida acaba.

A morte seria o fim? No campo religioso a pergunta tem muitas respostas diferentes, mas quase todas levam a um mesmo caminho: a vida de novo através da reencarnação ou da ressurreição.

Para a ciência a morte é o fim, já que a vida existe apenas quando há atividade cerebral. Qualquer outra coisa seria mera ficção, fruto de crenças e fantasia. Mas, um fato curioso tem atraído a atenção da ciência atual: as chamadas EQM’S, ou Experiência Quase Morte.

Em Santos, o médico e escritor Dr. Edson Amâncio, renomado nome da neurociência brasileira, com ampla experiência médica internacional e integrante do corpo clínico do Hospital Albert Einstein é um dos profissionais mais reconhecidos mundialmente quando se fala no tema. De acordo com ele, em seus muitos atendimentos, histórias de EQM’s já tinham sido citadas por alguns pacientes, mas “com o ceticismo da profissão, nunca dei muita atenção”, assume.

A postura mudou ao se deparar com um estudo sobre EQM’s publicado em uma das revistas mais sérias da área científica. “Os relatos me impressionaram tanto que decidi estudar”, explica Amâncio.

Em parceria com o físico Carlos Mendes, Edson criou um grupo de estudos e um canal no YouTube, “Afinal o que somos nós?”, onde discute sobre o tema e entrevista pessoas que passaram pela Experiência Quase Morte.

DL - DL - Como surgiu o interesse em pesquisar sobre a Experiência Quase Morte?

Edson Amâncio - Essa história é curiosa porque eu como médico ouvi alguns casos, mas como todo médico - com um certo conteúdo cético - prestava atenção, mas nunca me aprofundava. Eu imagino que quem trabalha em centro cirúrgico e UTI já ouviu muitos casos de EQM, mas até onde eu pude perceber os médicos são um pouco indiferentes quanto a isso. Então, há uns cinco anos eu estava folheando uma das revistas científicas mais importantes da área médica mundial e vi um artigo de um cardiologista holandês que publicou um trabalho prospectivo com 300 casos de Experiência Quase Morte. Eu fiquei chocado porque a revista é muito conceituada, ou seja, para aceitar um trabalho científico neste assunto é porque era muito sério. A partir daquele momento eu me interessei e lembrei dos meus casos que eu nunca tinha dado importância. Então, junto com alguns colegas da área, montei um grupo de estudos. Tem um físico, dois psiquiatras e um neuropsicólogo da Unicamp. Nós nos reunimos e nos propusemos a estudar cientificamente esse tema. Esse foi o começo de tudo. Passamos a ler os trabalhos disponíveis na literatura médica e o próprio Pim Van Lommel, o cardiologista holandês da revista que depois acabou publicando um livro sobre o tema. Através dessas pesquisas descobrimos que estudos científicos sobre EQM’s são possíveis. Existe, inclusive, um protocolo feito por um médico americano que é seguido por todo mundo que estuda EQM.

 

DL - Como é esse protocolo?

Edson – É um questionário com 16 questões nas quais você consegue quantificar a experiência citada pelo paciente em fraca, moderada ou forte. Trocando em miúdos: uma experiência forte é quando a pessoa tem o diagnóstico de morte estabelecido e naquela situação de emergência vê o próprio corpo e é capaz de descrever o que foi feito com ela, como o transporte na ambulância, os procedimentos e, posteriormente, esse relato possa ser comprovado. Um exemplo é o caso de um paciente que teve uma parada cardíaca próxima a um hospital e naquela correria para o atendimento, o homem já inconsciente, tiraram a dentadura e entubaram. Ele viu tudo. Saiu do corpo e viu a massagem cardíaca sendo feita, quem massageou e quando retomou a consciência, queria saber onde estava a dentadura dele, mas ninguém sabia. Aí passou uma enfermeira e o homem disse que tinha sido ela quem tinha guardado a dentadura em um carrinho de anestesia e o fato foi confirmado. Esse é o tipo de experiência considerada forte porque a pessoa estava em coma ou morta, mas descreve situações que podem ser comprovadas.

 

DL – O seu grupo de estudos criou um canal no YouTube para ouvir as histórias de quem passou por EQM’S. Como chegaram a essas pessoas?

Edson - Nós fizemos uma chamada no YouTube na qual eu explico o que é a Experiência Quase Morte e conclamo as pessoas que passaram por EQM e têm interesse em ser entrevistada. Ela responde ao questionário e precisa fazer até sete pontos para ser considerada uma Experiência Quase Morte para um estudo científico.

 

DL – Li que as EQM’s, geralmente, têm pontos em comum. É verdade?

Edson – Sim, em geral, as pessoas durante a ressuscitação se veem fora do corpo. Muitas tentam comunicar as pessoas que estão presentes e ninguém escuta o que elas estão dizendo. Elas ficam assistindo o que está acontecendo e subitamente são atraídas para uma região – que muitas descrevem como um túnel. O que é muito curioso é que a maioria delas fala de um bem-estar muito grande. É raro uma pessoa que tenha tido uma EQM e relate uma experiência desagradável. Todos dizem que é um bem-estar, uma comunhão com o Universo que eles não têm palavras para descrever. Alguns são transportados para um lugar onde há muita luz e, às vezes, eles encontram um ser que é transcendental, sobrenatural, também envolvido em luz ou é “pura luz”. Alguns encontram familiares que já morreram. Em geral, eles são acolhidos por pessoas conhecidas e chegam a um determinado local onde há uma barreira da qual não podem passar. Também há um número grande de registros onde há uma espécie de filme de alta velocidade no qual eles veem cenas da própria vida, do nascimento até o momento. E o mais importante é que não há ninguém que tenha passado pela EQM e volte sendo a mesma pessoa. Elas mudam completamente.

 

DL - Mudam como?

Edson - Mudam para melhor. Tornam-se pessoas menos ligadas a coisas materiais, ficam mais próximas dos outros, alguns se envolvem com religião, mesmo aqueles que não eram religiosos antes. Alguns desenvolvem sensibilidade de premonição. Há uma tendência em interpretar a EQM como se fosse o espírito saindo do corpo, mas nós sempre procuramos não dar caráter religioso a isso.

 

DL - Essas experiências que acontecem quando o cérebro está momentaneamente morto levam então a crer que a consciência seria capaz de viver fora do corpo?

 

Edson - Este é o ponto que nós estamos buscando porque para a ciência, a mente - ou o espírito como algumas pessoas preferem chamar - é materialista, então a mente é produto do neurônio, é química. A ciência acredita que o cérebro fabrica a mente da mesma forma que a mama fabrica o leite. Sendo assim, morreu o cérebro, não tem química, não tem mente, mas a Experiência Quase Morte traz um paradigma completamente oposto a isso porque a pessoa está morta e como que a mente dela está vendo coisas do próprio corpo? Por isso a pergunta que se coloca é: A mente pode existir fora do corpo?

 

DL - Isso provaria que a vida continua após da morte?

Edson - Não é nosso objetivo provar que existe vida após a morte, mas pelo menos questionar esse paradigma da ciência de que a consciência é produto do cérebro. Como? Se o cérebro está morto, parado, como a pessoa descreve coisas? Quebrando esse paradigma, começamos a pensar de uma forma diferente. Antes, na ciência, isso não entrava em discussão, mas atualmente está cheio de trabalhos científicos no mundo todo escrevendo casos de EQM, tentando uma interpretação - algumas até curiosas do ponto de vista científico que merecem ser discutidas, por exemplo: é sabido que quando você está em uma situação de quase morte, durante um acidente, por exemplo, existe uma substância no nosso organismo chamada DMT (Dimetiltriptamina) e nessa hora de grande stress ela é injetada de forma violenta na circulação. Fizeram testes em laboratórios e o DMT aplicado nas pessoas provoca a sensação de EQM: elas citaram que saíram do corpo, encontraram seres, que tiveram uma paz, uma alegria. Existe inclusive um livro sobre a DMT que se chama “A Droga do Espírito”. É uma coisa que tem que ser discutida. Ela também está presente na planta Ayahuasca e as experiências relatadas são muito parecidas com a EQM, mas ninguém viu o próprio corpo nem gente que já morreu, então tem certa diferença. Tudo ainda está no campo da especulação.

 

DL – E o que dizem os médicos e cientistas que não acreditam nas EQM’s?

Edson - Explicações triviais para as EQM’s que alguns médicos alegam já não são mais discutidas, como falta de oxigênio, ou que a pessoa tomou uma injeção de adrenalina no coração na hora em que estava com parada cardíaca e essa química injetada provoca essas reações. Não existe a menor possibilidade de ser essa explicação.

 

DL- Poderia citar um caso muito marcante?

Edson - Há um caso emblemático de uma musicóloga americana, Pamela Reynolds, que descobriu através de uma dor de cabeça, um aneurisma gigante de artéria vertebral. Ela foi encaminhada para um médico pioneiro nesse tipo de cirurgia, no Arizona, para tentar uma chance de sobrevivência. O médico então explicou o procedimento: “Você vai ser submetida à anestesia geral, a sua temperatura corporal será rebaixada até a hora que parar o seu coração e o seu cérebro. Aí nós vamos abrir a sua cabeça, ligamos a aneurisma e depois a sua temperatura vai voltando ao normal e você pode sobreviver ou não. Esta é a proposta”. Ela aceitou. Foi anestesiada, teve os olhos vendados para não ressecar a córnea, os ouvidos foram tampados e o eletroencefalograma ligado. A Pamela conta que na anestesia geral já pulou para fora do corpo e começou a ver tudo o que estava acontecendo antes mesmo do resfriamento. Então, durante a EQM ela vai embora, atravessa o teto e encontra um parente, um tio que já tinha morrido e aquele bem-estar é tão grande que a maioria das pessoas recusa a volta. Aí o tio falou que ela tinha que voltar, mas ela relutou. Então ele a conduziu até o centro cirúrgico. Quando ela viu o corpo dela, falou: “Não entro aí em hipótese alguma”. Todos têm uma impressão muito ruim do corpo anestesiado. Então o tio dela falou que ela tinha que entrar como se estivesse mergulhando em uma piscina. Ela voltou e disse que nunca sentiu tanto frio na vida. A temperatura dela estava começando a voltar, já tinha terminado a cirurgia. Esse é um dos casos emblemáticos, não tem como questionar: o eletroencefalograma com ondas lisas, ou seja, morte cerebral, sem sangue no corpo, os olhos vendados e o ouvido tampado.

 

DL - E a EQM através de uma tentativa de suicídio? Há registros se a sensação é boa ou ruim?

Edson - Temos um único caso de Experiência Quase Morte em nosso canal relacionado ao suicídio. É de uma mulher que tentou se suicidar várias vezes e a EQM dela foi negativa, a ponto de fazê-la pensar se valia a pena ir por esse caminho. A experiência negativa do suicida existe. É terrificante.

 

DL – Você disse que as pessoas que passam pela EQM mudam. E o senhor, mesmo carregando o ceticismo comum dos médicos, após ouvir tantas histórias mudou também?

Edson - Se eu não mudasse eu seria muito cabeça dura porque nós já entrevistamos mais de 40 pessoas que tiveram EQM e todas elas são pessoas sensatas. Então não há como você ficar indiferente a isso. É obvio que na minha postura, se havia um ceticismo acadêmico - vamos dizer assim - foi para o espaço. Eu só estou querendo saber o que acontece de verdade.

 

DL - O cérebro não é 100% mapeado. Então, podemos pensar que guarda ainda muitos mistérios e talvez até um sexto sentido? Ou uma visão escondida de uma outra dimensão que só surge na morte?

Edson - Estamos longe de saber tudo sobre o cérebro. Essa talvez seja a razão principal de nós termos no nosso grupo um físico teórico. A experiência adquirida por quem já se aprofundou mais no estudo da EQM é que a coisa realmente se passa numa outra dimensão que não é essa nossa aqui. Por isso que o senso comum não consegue entender e o gancho para essa explicação está na física quântica. O físico do nosso grupo acha que a explicação virá quando a física quântica for mais conhecida não só para as pessoas da área, mas para qualquer pessoa. Tudo está pairando por aí...

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