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‘As prefeituras têm que agir rápido para evitar uma endemia’

Leishmaniose. A especialista, Denise Salgado, revela o perigo de autoridades avaliarem a doença de forma isolada

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19 MAR 2017Por Carlos Ratton11h30
Denise Salgado, veterinária. Ela foi a primeira a detectar o caso de leishmaniose em Brasília (DF) e explica que o que ocorreu em Guarujá precisa de atenção de toda a Baixada SantistaFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Em 21 de novembro do ano passado, um menino de quatro anos morreu, em Guarujá, sob suspeita de leishmaniose visceral. O irmão dele, de um ano e sete meses, faleceu três meses antes. Segundo o Hospital Santo Amaro (HSA), o menino foi internado apresentando sintomas de diversas patologias. O menino estava infectado com leishmanias, segundo exame realizado no Centro Infantil Boldrini, localizado em Campinas, e seguiu o tratamento no hospital, em Guarujá. Porém, não resistiu e faleceu.

No Papo de Domingo de hoje, o Diário do Litoral entrevistou a veterinária Denise Salgado, que possui curso de especialização em Patologia Clínica Veterinária pela Universidade de São Paulo (USP) e que está com um laboratório na cidade. Ela foi a primeira a detectar o caso de leishmaniose em Brasília (DF) e explica que o que ocorreu em Guarujá precisa de atenção de toda a Baixada Santista. Confira os principais trechos da entrevista:

Diário do Litoral (DL) – Esse caso não pode ser visto de forma isolada?
Denise Salgado –
A leishmaniose é uma zoonose (doença que atinge homens e animais) endêmica acometendo grupos humanos distribuídos em espaços delimitados em todo o Nordeste do País. Há anos que vem se observando a urbanização da doença, que saiu das áreas rurais e atingiu as cidades. As principais capitais brasileiras já vêm apresentando casos. No Rio de Janeiro, já é endêmica. Isso também vem ocorrendo no mundo.

DL – A doença atinge que faixas etárias?
Denise –
Principalmente crianças menores de 10 anos, cujo sistema imunológico ainda não se completou, e idosos acima de 60 anos, pessoas que fazem quimioterapia, pacientes com AIDS e que também estão com o sistema imunológico baixo.

DL – As pessoas entre 10 e 60 anos têm que se preocupar?
Denise –
Geralmente, entre essas idades, o sistema imunológico elimina o agente e diminui os riscos.

DL – Por que os cães?
Denise –
Quem transmite a leishmaniose, que é um protozoário (microrganismos que não possuem a capacidade de produzir seu próprio alimento, e por isso se alimentam de seres vivos), é um mosquito pequeno (palha). Só a fêmea transmite a doença. O mosquito pica o cão, que fica anos com a doença que cresce de forma vagarosa, crônica (não aguda). Depois, o mosquito pica o homem e passa a doença.

DL – As pessoas podem conviver com o cão contaminado?
Denise –
Sim, pode abraçar, beijar que não pega a doença. Para eliminar a leishmaniose é preciso acabar com os mosquitos. Matar o animal não diminui e nem evita a leishmaniose humana.

DL - Como saber se o animal está contaminado?
Denise –
Os sintomas se apresentam de forma simples, como um pequeno problema no pelo do animal, mas também de forma clássica, revelando problemas internos que afetam baço, provocam insuficiência renal, hepática e outras. O problema é que 65% dos cães não apresentam a forma clássica da doença e aí é que está o perigo.

DL – O que fazer então?
Denise –
As prefeituras têm que agir rápido para evitar uma endemia. É preciso urgente fazer um levantamento epidemiológico para saber quantos cães estão contaminados. Se há crianças acometidas em Guarujá, com certeza tem cães. Dez anos antes de ocorrer uma epidemia humana, ocorreu uma canina. Então, a canina é um termômetro da doença. É preciso fazer uma triagem sorológica e os animais cujos exames forem positivos precisam ser submetidos ao exame de medula óssea do cão. Para cada tipo de apresentação clínica da doença é preciso um cuidado diferente. As pessoas têm que fazer exames anuais em seus cães por intermédio de um especialista.

DL – Onde o mosquito se prolifera?
Denise -
Em locais úmidos e com lixo. O mosquito só se alimenta à noite porque não aguenta o calor. Ele está em atividade, geralmente, entre meia-noite e quatro da madrugada. A orientação é tirar os cães do quintal neste período, telar as casas, retirar folhas secas e frutos que caem das árvores. Outra prevenção é a limpeza das casas.

DL – Quais os sintomas no humano?
Denise –
No caso da doença em humanos, as pessoas devem ficar atentas aos principais sintomas, que são: febre, fraqueza, feridas na pele e falta de apetite. Aumento do baço, do fígado e outros, porque é um protozoário do sangue. Só há um medicamento que cura e, para os cães, existe um medicamento que chegou agora no Brasil. De qualquer forma, as autoridades regionais precisam se movimentar e iniciar uma ampla campanha de esclarecimentos.

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