DL Cultura: Os bastidores de uma exposição cultural

Estudo, pesquisa, conservação da obra, iluminação, narrativa expográfica, planejamento, organização, tudo isso faz parte dos bastidores

26 DEZ 2017 • 12h30
'O caos do processo não aparece quando você finaliza a obra', afirma Paulo Von Poser - Rodrigo Montaldi/DL

A exposição está pronta. Mas ela é a ponta do iceberg. Antes, diversos profissionais trabalharam por meses pensando em cada detalhe que contribuiria para a mostra cumprir o seu papel.  Estudo, pesquisa, conservação da obra, iluminação, narrativa expográfica, planejamento, organização, tudo isso faz parte dos bastidores de uma exposição.

“Dentro da cadeia operatória de um museu, a exposição é a ponta do iceberg. A partir da mostra que a instituição transmite sua missão como espaço de conhecimento e lazer”, explica a especialista em museologia, Marjorie Medeiros.

O desenhista Paulo Von Poser foi convidado por Marjorie e por Ana Kalassa, professora e mestre em artes, para fazer uma exposição que mostrasse um novo olhar das obras de Benedicto Calixto. A ideia compartilhada deu origem a ‘Porto, Tempo, Paisagem’, que está exposta na Pinacoteca, em Santos.

Para ele, que também é artista plástico, arquiteto, ceramista, ilustrador e professor, o desenho só se completa na relação com o público. Este complemento não acontece no gostar ou não do que se vê, mas na forma como atinge as pessoas. “A exposição pode trazer mundos, sonhos, inquietudes e indignação para os olhos deste público”, comenta.

De acordo com a especialista em museologia, as exposições produzidas na Pinacoteca levam em torno de três meses para ficar prontas. Mas esse tempo pode ser variável para mais ou menos. Desde a primeira conversa até a exposição na Pinacoteca, o trabalho de Paulo Von Poser levou seis meses para se concretizar.

O artista, que sempre sonhou em expor no local, conheceu as obras de Calixto na faculdade de arquitetura da USP, em 1982. Em 1986, veio para Santos dar aulas. Se aproximou ainda mais da cidade em 2008, quando foi convidado para pintar o teto do Teatro Guarany.
Para a mostra, teve que fazer uma imersão na vida e obra de Benedicto Calixto. “Voltei nos lugares de onde ele viu o Porto e selecionei àqueles que pareciam ser os pontos de vista dele. No final, acabaram coincidindo com a minha visão do local”, relembra.
Na exposição há também uma espécie de caleidoscópio, onde o artista colocou vários objetos, desenhos e fotos que fizeram parte de seu processo criativo.

“O caos do processo não aparece quando você finaliza a exposição. Parece tudo muito pronto. Quando você consegue expor seu processo, a pessoa se sente parte daquilo”, diz. “O que fiz foi uma gota, não mergulhei”, complementa.

Para o trabalho do artista não se perder, museólogos e especialistas em museologia atuam - entre outras coisas - para preservar, pesquisar e comunicar, com a finalidade de contribuir para a construção da identidade cultural do indivíduo.

O trabalho não termina com a exposição. Através do espaço de conhecimento de um museu, preserva-se a memória e forma-se a identidade de uma região. “Antigamente se pensava que museus eram locais de coisas velhas e sem uso. Hoje, devido a um trabalho de diversos profissionais, notam-se as mudanças, tornando-se, cada vez mais, um espaço de produtores de conhecimentos, que contribuem na promoção e desenvolvimento humano e em uma perspectiva de respeito e valorização cultural, social e ética”, finaliza Medeiros.

A exposição ‘Porto, Tempo, Paisagem’ está na Pinacoteca Benedicto Calixto até o dia 18 de fevereiro de 2018. Quem quiser sentir um pouco do trabalho pré-exposição pode participar da atividade de desenho de observação do casarão da Pinacoteca, no dia 06 de janeiro. Na ocasião, o desenhista irá propor um desenho coletivo, para que as pessoas percebam que uma obra nunca está completa.