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Baixa popularidade e ataques a igrejas desafiam o papa em visita ao Chile

Segundo o instituto Latinobarómetro, trata-se do país latino-americano onde menos se confia neste pontífice

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15 JAN 2018Por Folhapress17h28
O papa Francisco chega ao Chile na noite desta segunda-feira (15) ciente de que não é um campeão de popularidade por aliFoto: Divulgação

O papa Francisco chega ao Chile na noite desta segunda-feira (15) ciente de que não é um campeão de popularidade por ali.

Segundo o instituto Latinobarómetro, trata-se do país latino-americano onde menos se confia neste pontífice (sua nota é de 5,3, ante uma média de 6,8 de sua avaliação na região), e na Igreja Católica, em geral, com apenas 45% dos chilenos se declarando católicos -o índice caiu cerca de 20 pontos percentuais desde 2010.

A Igreja chilena afirma que há mais de 13 milhões de católicos no país, ou seja, 74% da população. Mas pesquisas como as do Latinobarómetro e outra, de 2014, a Pesquisa do Bicentenário, indicam que esse número estaria agora em torno de 59%.

A queda se acentuou após a divulgação, em 2010, com intensa repercussão midiática, dos crimes de pedofilia do então sacerdote Fernando Karadima, 87, um dos religiosos mais importantes do país.

O Vaticano realizou uma investigação e o considerou culpado de 75 casos de abusos a menores, afastando-o em 2011. Porém, os chilenos cobram do papa um posicionamento mais condenatório não apenas contra Karadima, mas também contra sacerdotes e bispos acusados de terem encoberto o caso por vários anos.

Também há desconforto por parte dos chilenos pelo fato de, até aqui, o papa ter mostrado simpatia pela causa da Bolívia em sua reivindicação por um acesso ao mar, recuperando parte de seu território perdido para o Chile, num conflito no século 19.

Apesar de haver um tratado entre os dois países, fixando a fronteira como é hoje desde 1904, o presidente boliviano, Evo Morales, tem buscado levar a questão a fóruns e organismos internacionais, como o Tribunal de Haia, como uma espécie de cruzada nacionalista que tem servido também a seus propósitos eleitorais.

Quando visitou a Bolívia, em 2015, e há duas semanas, ao receber Morales em Roma, o papa se declarou simpático à causa, e há tensão em Santiago sobre o que poderá dizer sobre o tema aos chilenos. Em especial, à presidente Michelle Bachelet, em seu encontro com a mandatária, no palácio de La Moneda, nesta terça-feira (16).

A posição do Chile é de que não há volta atrás com relação ao combinado no tratado, até porque este também estabeleceu vantagens aos bolivianos, como a eliminação de impostos para que seus produtos sejam transportados por terra até portos no Chile, onde podem ser embarcados.

ESTADO LAICO

Também há protestos no país pelos altos gastos com a segurança do pontífice e pela declaração de feriado nos dias e nas cidades pelas quais irá passar enquanto estiver no país.

Uma pesquisa do Instituto Cadem diz que apenas 23% dos entrevistados qualifica a visita como "muito importante", enquanto 50% a considera "pouco ou nada importante". Ainda, 54% afirma estar "em desacordo" com a declaração de feriado durante a presença do pontífice em Iquique, Santiago e Temuco, por conta de o Chile ser, oficialmente, um Estado laico.

ATAQUES A IGREJAS

Por ora, o desconforto tem se mostrado por meio de ataques a igrejas, ocorridos nos últimos dias e reivindicados pelo grupo Lautaro. Trata-se de uma guerrilha que era ativa nos anos 1980 e que realizava atos contra a ditadura militar (1973-1990).

Nos últimos anos, o grupo vem se rearticulando, mas abrangendo bandeiras diversas, como o anarquismo e a causa de grupos mapuche que reivindicam parte dos territórios chileno e argentino para a criação do Wallmapu, como é chamada a "nação mapuche".

Também entre políticos e simpatizantes da esquerda, a visita do papa é malvista.

Ainda está viva na memória de muitos chilenos a visita amigável do papa João Paulo 2º ao país, no qual saiu na varanda do Palácio de La Moneda ao lado do general Augusto Pinochet. Esquerdistas acusam a Igreja Católica de ter apoiado tanto o golpe como a permanência dos militares no poder por tantos anos.

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