Vilas Operárias de Cubatão: patrimônio a ser descoberto

No estilo art nouveau, as vilas seguiram o mesmo traçado urbanístico das vilas operárias da Europa

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19 FEV 2018Por Rafaella Martinez10h31
No estilo art nouveau, as vilas seguiram o mesmo traçado urbanístico das vilas operárias da EuropaFoto: Rodrigo Montaldi/DL

A chegada das indústrias em Cubatão, entre o final do século XIX e o início do século XX trouxe, além de desenvolvimento econômico, um patrimônio arquitetônico de valor inestimável: a instalação de vilas operárias de estilo art nouveau, que seguiram o mesmo traçado urbanístico das vilas operárias da Europa para a cidade.

Três núcleos remanescentes das antigas vilas seguem de pé: a Fabril, erguida em 1919 para abrigar os funcionários da antiga Companhia Santista de Papéis no sopé da Serra do Mar; a Light, instalada em 1926 na área da Usina Hidrelétrica Henry Boarden e a Anilinas, erguida em 1908 e que abriga hoje o principal parque público de Cubatão.

Todas as vilas foram erguidas no período industrial e instalas em áreas estratégicas, onde a natureza oferecia matéria-prima para que as empresas pudessem produzir. No caso da Fabril, a água em abundância e a grande quantidade de eucaliptos – o que gerava muita lenha para movimentar as caldeiras e era material para produzir celulose – foi um fator crucial.

Mais antiga indústria de Cubatão, a Santista se instalou na cidade com o intuito de expandir a indústria papeleira no Brasil em um período de efervescência cultural e grandes publicações impulsionadas pela Semana de Arte Moderna de 1922. Nas 161 casas erguidas em estilo inglês, moravam trabalhadores da Companhia de Papel e suas famílias, que migraram para a cidade por conta do trabalho.

A disposição geográfica das Vilas criou verdadeiras cidadelas em diversos pontos da cidade. “Essas áreas tinham cinema, clube e armazéns. Nem mesmo o centro da cidade tinha a estrutura que essas vilas tinham.

O Bloco Carnavalesco dos Cabeções levou muito brilho e folia para as ruas da Fabril e até mesmo o rei Pelé jogou no campo do Comercial Santista Futebol Clube, time do bairro formado por funcionários da Companhia Santista”, conta o arquiteto Rubens Alves de Brito, presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão (Condepac).

De acordo com ele, a cidade guarda um acervo arquitetônico, industrial, cultural e histórico que precisa ser preservado. “Essas áreas tem um significado forte na memória presente do povo. Ano passado realizamos uma audiência pública pedindo por maior segurança a essas riquezas imateriais que temos”, destaca. 

Dentre as medidas está a criação de um departamento de preservação do patrimônio, o tombamento da Vila Fabril e o repasse da área da Light da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) - atual administradora do espaço - para a Prefeitura. 

Tombamento e recuperação das áreas são questionados

Dispostos a preservar e recuperar esse patrimônio, um grupo comandado pelo presidente do Condepac luta, desde 2005, para conseguir o tombamento das 55 casas remanescentes na Vila Fabril. Hoje doze famílias ainda moram no espaço, que possui diversas casas fechadas e parcialmente depredadas.

“O processo de abandono aconteceu na década de 70, quando as empresas mudaram de mãos e muitos trabalhadores se aposentaram e retornaram para suas cidades de origens, deixando as casas ociosas e abertas ao abandono. Nosso objetivo é conseguir o tombamento e pensar em um projeto de gestão das vilas para uso cultural, a exemplo do que foi feito no Anilinas”, destaca Rubens.

O processo de tombamento da Vila Fabril existe desde 2005 e já recebeu aval do Ministério Público. No entanto, aguarda a homologação da minuta de tombamento pela Prefeitura desde 2012. Em 2015 o Ministério Público determinou a tutela antecipada proibindo qualquer obra no entorno do espaço sem que antes fosse garantida a preservação de toda a vila. Já em 2016 a juíza de Direito, Drª Sheyla Romano dos Santos Moura determinou que as empresas MD Papéis e Formilinter, proprietárias dos imóveis, recuperassem a igreja Nossa Senhora Aparecida e todos os demais imóveis da Vila Operária, sob pena de multa diária de R$ 20 mil. A empresa recorreu e o processo ainda está em andamento.

Questionada novamente, a Prefeitura de Cubatão não respondeu as demandas da reportagem até o fechamento desta edição.

A Vila Light, que também abriga diversas casas depredadas, está inscrita no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como sítio arqueológico, o que impossibilita a descaracterização do espaço onde hoje ainda residem funcionários da Henry Borden. São 140 casas de alvenaria, com tamanhos que variam de 90 a 200 metros quadrados, distribuídos ao longo de 89 mil metros quadrados de ruas largas e arborizadas onde quase nunca passam carros.

O Parque Anilinas é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Cubatão.

 

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