07h : 19min

Conheça o
Caderno + DL

Ler

Assine o Jornal por R$8
por mês no plano atual

AssineLer Jornal

Turismo comunitário no coração da Serra do Mar

Projeto de fortalecimento de vínculos capacita moradores para guiarem expedições pelos bairros-cota; geração de renda é objetivo central

Comentar
Compartilhar
14 JUN 2017Por Rafaella Martinez10h00
No píer, a vista privilegiada de toda a Baixada Santista, contemplada ao lado da vegetação nativa da Mata Atlântica e do som das águasFoto: Rodrigo Montaldi/DL

No píer, a vista privilegiada de toda a Baixada Santista, contemplada ao lado da vegetação nativa da Mata Atlântica e do som das águas que escorrem pelas pedras morro abaixo. Entre os morros, os veículos trafegam pela Via Anchieta, que corta a natureza e guia diariamente milhares de pessoas serra acima. Instalados no meio desse cenário, os bairros-cota funcionam com uma passagem entre a natureza e a urbanidade e o potencial deste conglomerado onde vivem 22 mil pessoas está sendo explorado desde 2015 pelos próprios moradores que guiam visitantes pelas vielas e recantos da natureza dentro da proposta do Turismo de Base Comunitária (TBC).

O objetivo principal da empreitada é fortalecer os vínculos das comunidades com o espaço transformado pelo Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar do Governo do Estado de São Paulo por intermédio das Secretarias de Habitação (SH) e do Meio Ambiente (SMA), além de estimular a geração de renda para os moradores de todos os núcleos que participam do trabalho.

A ideia surgiu em 2015, após a visita do príncipe Harry, neto da rainha Elizabeth, que esteve na Cota 200 para conhecer os projetos sociais desenvolvidos nos bairros-cota (o Diário publicará reportagens sobre as propostas ao longo desta semana). A partir da visita, a equipe social percebeu que as visitas poderiam beneficiar o desenvolvimento local, e idealizou o TBC.

“A posição geográfica dos bairros-cota e a rica história do território, que começou a ser habitado pelas famílias dos responsáveis pela construção da rodovia em 1939, são um prato cheio para visitantes de todos os tipos: sejam os estudiosos nas temáticas ambientais, especialistas em urbanismo ou curiosos em geral. Começamos um curso para capacitar os moradores para atuarem como guias. Em algumas ocasiões, dependendo do público que está com o grupo, acontecem intervenções teatrais no meio das contações de histórias pelas ruas dos bairros”, aponta o técnico social Alex dos Santos.

Em parceria com a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) de São Vicente, na figura do professor Davis Gruber Sansolo, do Instituto de Biociências, Campus do Litoral Paulista (IB/CLP), o projeto foi alavancado por aliar políticas de proteção da natureza com desenvolvimento turístico, baseado em três eixos: ecológico, histórico e socioambiental.

O Turismo Comunitário na Cota 200 pode ser agendado com a agência Caiçara Expedições (Foto: Rodrigo Montaldi/DL)

Desde 2015, 1118 pessoas do Brasil e do Mundo já visitam as cotas em 56 visitas organizadas de forma avulsa ou em parcerias com órgãos, agencias de turismo e universidades. A proposta agora é integrar, a partir do próximo semestre, o turismo comunitário ao turismo do Parque Estadual da Serra do Mar. “Os 28 moradores que participam do projeto hoje farão um curso de especialização e a partir disso ganharão uma carteira de monitores do parque e estarão aptos para levar os visitantes também por aquelas áreas”, conta Alex.

O Turismo Comunitário Arte nas Cotas - Cota 200 pode ser agendado com a agência Caiçara Expedições pelo e-mail: [email protected] ou através do telefone 3377-1371.

Vivências e descobertas no coração da mata Atlântica da Serra do Mar

Quando foi informada que a sua casa estava inserida em uma área de risco, Cida Silva não queria abandonar a Cota 200, bairro que chama de lar há mais de 18 anos. A saída foi ‘trocar de lugar’ com um vizinho (que recebeu auxílio para sair da região) e permanecer no local onde, pouco tempo depois passou a atuar como monitora do TBC.

“Comecei nas atividades há sete anos e hoje trabalho junto com a minha filha guiando os visitantes pelo bairro. É um trabalho recompensador, pois eu aprendo com quem sobe aqui na Cota e eles vão embora dizendo que também aprenderam algo com a gente”, conta sorrindo.

Desempregada, Tatiane Hinckel encontrou nas visitas monitoradas uma possibilidade de complementar a renda de casa e redescobrir a sua própria história. “Nasci na Cota 200 e aprender a história desse bairro para poder contá-la para os turistas significou muito para mim”, finaliza a monitora, olhando do alto do píer toda a extensão da Região Metropolitana da Baixada Santista.

Sobre o Programa

O Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar do Governo do Estado de São Paulo por intermédio das Secretarias de Habitação (SH) e do Meio Ambiente (SMA) tem como objetivo dar condições dignas de moradia para 22 mil pessoas que ocupavam áreas de assentamento irregulares, incluindo áreas de risco, e proteger 1.240 hectares da Mata Atlântica.

O programa teve início em 2007 e uma parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 2010 possibilitou avanços significativos para os moradores de todos os núcleos que existem na encosta ao longo da Via Anchieta (Cota 95/100, Cota 200, Cota 400 e Cota 500 – e no sopé da serra ao longo do rio Cubatão – Pinheiro do Miranda, Água Fria, Pilões e Sítio dos Queirozes). A instituição financeira emprestou 162 milhões de dólares – que representam 35% do investimento total – para uma contrapartida do governo do estado e demais parceiros, como o governo federal, de 308 milhões de dólares – equivalentes a 65% do custo do projeto.

O programa conta com quatro principais objetivos: a redução do impacto das populações residentes nas áreas de preservação, bem como a melhoria das suas condições de vida, a proteção das unidades de conservação e o fortalecimento da fiscalização dessas áreas.

Colunas

Contraponto