Santos

Quem são os operadores das comportas dos canais de Santos?

Além do contexto histórico, os canais integram um dos processos logísticos responsáveis por auxiliar a rede de drenagem do município

Comentar
Compartilhar
26 DEZ 2017Por Vanessa Pimentel16h05
Ao todo existem seis comportas na orla e sete intermediárias (presentes na extensão dos canais)Foto: Rodrigo Montaldi/DL

Há mais de cem anos, a chegada do promissor engenheiro Francisco Rodrigues Saturnino de Brito a Santos mudaria por completo o cenário triste em que a cidade se encontrava. Com o crescimento acelerado do município e um sistema rudimentar de rede de esgoto que se misturava a água da chuva, as epidemias se instalaram e chegaram a matar mais da metade da população da época, entre os anos de 1890 e 1904, segundo informações dispostas nos registros da Fundação Arquivo e Memória de Santos.

A construção dos nove canais proposta por Saturnino resolveu o problema e se tornou uma referência que norteia os munícipes e os turistas até hoje. Mas, como funciona o processo logístico dos canais? Quem comanda a abertura e o fechamento das comportas? Como o clima e a maré direcionam qual decisão tomar durante a operação?

As perguntas fizeram a Reportagem passar algumas horas com a equipe da SESERP/SUP-ZOI (Secretaria Municipal de Serviços Públicos), responsável pela operação logística dos canais.

Composta por sete funcionários que se revezam em turnos diários e noturnos para que a operação possa ser mantida 24 horas, a equipe responsável pelo bom funcionamento dos canais tem como base o Posto de Salvamento 3, na Praia do Gonzaga.

Porém, o lugar é provisório, já que a prefeitura abriu licitação para trocar o sistema de comportas e com isso, a base de operação mudará de lugar, ainda não anunciado.

Atualmente, o operador de comportas mais antigo da cidade é o Alézio Protazio dos Passos, com 24 anos de profissão. Todos os dias, das 8h às 18h, ao lado de Ygor Ramom e Adilson da Silva Junior, a rotina é a mesma.

Eles passam em todos os canais para verificar se há lixo e se os interceptores estão funcionando normalmente. Quando há necessidade de limpeza, a Prodesan é acionada.

Ao voltar para a base, informam os dados do monitoramento em um relatório diário em parceria com a Semam (Secretaria Municipal do Meio Ambiente). O acompanhamento continua com os olhos atentos aos radares e satélites que indicam se há previsão de chuvas, o movimento da maré e as temidas ressacas.

“Se não tem chuva forte as comportas ficam fechadas. Se chove, a primeira a ser aberta é a do canal 3 porque as ruas do entorno ficam abaixo do nível do mar e enchem com mais facilidade. Depois a gente corre para abrir a do canal 2 e a do canal 1. O canal 4 também é baixo, mas demora mais para encher. Já os canais 5 e 6 tem caída para o Estuário, então é mais tranquilo”, explica Ygor.

O processo

Toda a operação é feita manualmente, mas foi modernizada. Segundo Alézio, há mais de 20 anos, para descer ou subir as comportas era necessária muita força para girar as manivelas. Hoje, basta apertar um botão que fica em uma caixa sobre as comportas que a operação acontece. As barreiras levam de 10 a 12 minutos para completar a operação.

“O pior cenário é quando começa a chover muito forte e a maré está alta ou tem ressaca. Se abrir a comporta entra areia no canal e a maré vai de encontro à água que vem do estuário. Aí as ruas enchem de qualquer jeito, não tem o que fazer”, explica Ygor.

Quando é necessário desassorear o canal, uma retroescavadeira faz uma caneleta e a areia escoa naturalmente. Como a maior parte do tempo as comportas ficam fechadas, os extravasores da Sabesp (canos que ficam na lateral dos canais) permanecem abertos e levam a água em direção ao emissário submarino.

Ao todo existem seis comportas na orla e sete intermediárias (presentes na extensão dos canais). O canal 1 é o mais extenso, seguindo da praia até a Bacia do Mercado, e faz interligação com o canal 2 e 3.

De acordo com a prefeitura, o processo de licitação tem como objetivo a substituição das comportas, visto que as estruturas já estão desgastadas e devido as constantes manutenções, a operação de abertura e fechamento está comprometida.

O edital pretende resgatar plenamente a operacionalização do sistema de drenagem dos canais e o controle do regime de marés nos bairros da Região da Orla e Zona Intermediária de Santos.

A previsão é que já no início de 2018 a substituição de dez comportas comece – seis na praia e quatro intermediárias.  O custo da operação é de cerca de R$2 milhões, segundo o engenheiro da Secretaria de Serviços Públicos, Roberto Moyano, e deve durar até meados de 2019.

O sistema ainda conta com estruturas históricas. As comportas do canal 1 e 2, por exemplo, têm mais de 100 anos de instalação.

Lixo

Os canais abrigam a água pluvial (de chuva) e não é raro ver pescadores em volta. Mas, de acordo com os operadores, o consumo do pescado não é indicado já que ainda há muito lixo jogado nos canais.

“O que nós percebemos é que não é lixo que vem da maré, e sim lixo que as pessoas jogam. Hoje mesmo tinha dois garrafões de água e restos de óleo. A gente não pode afirmar que são os quiosqueiros que despejam esse óleo ou o pessoal que tem as oficinas lá no Mercado, mas só de olhar a gente consegue ver as manchas na água”, aponta Ygor.

Alézio conta que o vento também acaba trazendo para o canal o lixo deixado na areia da praia, como pratinhos de milho e canudos plásticos. Mas, o problema maior, de acordo com os operadores, são os detritos dos animais.

“Muita gente tem animal de estimação em Santos e na hora de passear com eles acaba jogando as fezes nos canais. Isso é um problema porque essa água vai para o mar quando a gente abre as comportas e não dá para manter os níveis de balneabilidade”, declara Ygor.

Para eles, é necessário mais consciência da sociedade e cuidado com os canais que, além de fazerem parte da história, são extremamente importantes para o sistema de drenagem da cidade.

Canais levaram cerca de 20 anos para ficarem prontos

Os canais não surgiram, todos, ao mesmo tempo. O primeiro foi o canal 1, inaugurado em 1907. A estrutura, além de cumprir o papel de drenagem, canalizou o rio dos Soldados.

Os outros canais foram entregues ao longo de vinte anos: Canal 2 - Avenida Bernardino de Campos (1910), Canal 4 - Avenida Siqueira Campos (1911), Canal 7 - Avenida Francisco Manoel/ao lado da Santa Casa (1911), Canal 9 (1911) - Avenida Barão de Penedo/José Menino (1911), Canal 8 - Avenida Moura Ribeiro/Marapé (1912), Canal 6 - Avenida Joaquim Montenegro (1917), Canal 3 - Avenida Washington Luís (1923) e Canal 5 - Avenida Almirante Cochrane (1927).

Colunas

Contraponto