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“Precisamos de contato e de carinho”

A psicóloga Andrea Regina de Andrade Bastos, que atua com pacientes oncológicos aborda o acolhimento

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16 OUT 2016Por Daniela Origuela11h00
A psicóloga Andrea Regina de Andrade Bastos, que atua com pacientes oncológicos aborda o acolhimentoFoto: Rodrigo Montaldi/DL

A questão psicológica na oncologia. Esse é o tema que encerra a série de reportagem publicadas pelo Diário do Litoral desde o último domingo (9). Além do tratamento, foram muitas as histórias de vida e de superação retratadas ao longo desses sete dias.

Neste Papo de Domingo, a psicóloga Andrea Regina de Andrade Bastos, que tem especialização em psicologia hospital e há cinco anos atua com pacientes oncológicos na Associação Vicentina de Combate ao Câncer Genoveva Perez, em São Vicente, fala sobre vida, morte, família, fé e acolhimento.

Diário do Litoral - Como o paciente que tem o diagnóstico de câncer chega na primeira consulta?

Andrea Regina – A gente atende um público que, às vezes, chega sem diagnóstico. Alguns chegam com diagnóstico e já em tratamento e outros já com tratamento realizado, mas com questões emocionais a resolver em relação à doença. A gente poderia estar dividindo assim. Como o paciente recebe a notícia? A primeira reação nossa seria de negação. Eu digo nossa porque eu falo independe da patologia. Quando a gente recebe um diagnóstico, seja ele qual for, a primeira coisa é achar que foi um erro, que isso não está acontecendo comigo. Essa é a fase da negação. Depois ele vai para um outro momento, que é o da raiva onde se questiona o porquê do outro ser mais saudável. O nosso trabalho é tentar fazer que o indivíduo perceba que ele traz em si uma patologia e que precisa ser cuidado. O nosso trabalho na associação e até mesmo no hospital é desmistificar a palavra câncer de morte.

Diário do Litoral - Então a pessoa quando chega ao consultoria já acha que está sentenciada?

Andrea Regina – A gente trabalha com o paciente o entendimento de que o câncer não leva a morte e que existe um tratamento. Trabalha as fantasias com relação à quimioterapia e à radioterapia. Que não é um castigo, porque eles veem como castigo. O que será que fiz na vida para estar merecendo isso? Eu não merecia isso. É preciso fortalecer essa pessoa neste momento de descoberta ou de possibilidade de estar com câncer.

Diário do Litoral – Quais os aspectos psicológicos com relação ao câncer?

Andréa Regina – Tem alguns estudos que trazem o câncer associado a questão da falta de perdão. À pessoa que guardou muito ressentimento. É preciso considerar algumas coisas. Porque também não vamos levar tudo ao pé da letra, pois existe uma predisposição genética. Como em todas as outras doenças o mais importante é a gente trabalhar a qualidade de vida antes do acontecimento. Por isso é importante, e está no nossa trabalho aqui, as questões do Outubro Rosa e o Novembro Azul que é fazer com que a gente tome consciência da importância do cuidado com o corpo. Eu tenho muito cuidado de falar isso porque não é só o aspecto psicológico. Vamos levar em consideração os fatores de predisposição genética e o que ele traz na sua história de vida.

Diário do Litoral - Qual a importância da família no tratamento? É importante tratar a família também?

Andrea Regina – A família é a base de tudo. A família é de extrema importância porque é ela que vai dar o suporte afetivo e emocional para o paciente. Todo o trabalho que a gente faz com o paciente fazemos também com a família. O trabalho é a escuta. Escutar a angústia. Meu papel é minimizar. É fazer com que esse paciente se sinta o mais confortável possível e que essa família acolha o paciente. Que essa família seja acolhida pela equipe. O psicólogo não trabalha sozinho. Trabalha junto com uma equipe. Mas o nosso trabalho com a família é trabalhar também, por exemplo, a possibilidade de morte. Porque nós também temos o paciente que está nesse quadro.

Diário do Litoral - É diferente a abordagem com um paciente que tem perspectiva de cura e o que está em estado terminal?

Andrea Regina – A abordagem é a mesma. A escuta, o acolhimento, saber como eles estão se sentindo. A diferença é trabalhar a terminalidade. Porque naquele caso não adianta buscar e trazer para a família uma esperança que não existe mais. Amo trabalhar com isso. É muito bonito você poder, enquanto profissional, pegar na mão da pessoa, seja da família ou do paciente, e falar que a missão dele está cumprida. A minha experiência profissional, eu tenho vários relatos assim, de que o paciente não morre antes do momento em que ele mesmo tenha fechado a sua própria história. Tem coisas a serem fechadas. Tem pessoas a serem escutadas. Tem pessoas a serem perdoadas. O profissional que trabalha nesta área tem que ter uma sensibilidade muito grande de silenciar quando for necessário. Já tive uma experiência em que o paciente queria apenas uma mão. Peguei na mão dele e falei: o senhor está tranquilo. No dia seguinte soube que o paciente foi à óbito.

Diário do Litoral - Falar da morte é um tabu.

Andrea Regina - A gente ainda fala como se a morte fosse uma coisa assustadora e, na verdade, é mais uma passagem. Eu costumo dizer que nós nascemos do ventre. Quando nascemos deixamos aquele espaço uterino e viemos para outro momento um lugar que para nós é desconhecido. Para mim a morte é a mesma analogia. É sair desse ventre terra para uma outra dimensão. De acordo com a religião de cada um o que vai acontecer depois é vai de acordo com a fé.

Diário do Litoral - Ter um ombro amigo é importante?

Andrea Regina – Essa relação do poder falar, do poder sentir, e poder ter esse espaço é extremamente importante. Nós precisamos de afeto. Precisamos de contato e de carinho. Esses equipamentos eletrônicos (celulares) são importantes, mas são prejudicais quando eu só olho para ele e me vinculo através de um Facebook e de um Whatssap. Isso é complicado. Porque nós somos necessitados do contato com o outro. Para quem está adoecido esse contato com o outro é muito importante. No adoecimento há um processo regressivo. Se eu puder dar uma dica, antes da doença deixar ser instalada por uma patologia vamos começar a amar o outro e deixar ser amado. Não é só amar. Qual o problema de falar que eu preciso de carinho? Qual o problema de falar que eu amo? Qual o problema de enfrentar as nossas carências internas? A minha natureza necessita do contato com o outro, da troca, do amadurecimento, do limite do outro. A questão da doença aflora isso. São várias situações que a gente pode aprender com o adoecimento do outro.

Diário do Litoral - Qual a mensagem que você deixa para um paciente oncológico?

Andrea Regina - É entender que o câncer não está mais associado a morte. Existe uma possibilidade e sempre vai existir a possibilidade de cura. Buscar o apoio familiar, a retomada da história dele, sem trazer para si a culpa, mas o quanto eu preciso reviver a minha história. O quanto preciso mudar alguns comportamentos. O quanto preciso amar mais. E, se o paciente tiver a possibilidade de procurar isso através de um atendimento psicológico, de se autoconhecer, trazer a família para esse acompanhamento. Costumo dizer que a vida da gente tem uns aspectos psicológicos, biológicos, sociais e espirituais. Temos aí uma base. Estar buscando essas bases. Buscar sempre a orientação médica, o esclarecimento, o acompanhamento psicológico, a orientação com relação às questões sociais e o que é direito. As pessoas não conhecem os seus direitos. E essa força que muitos pacientes nossos trazem, que é a ligação divina. Entender que a vida está aí para ser vivida, e os processos da vida estão acontecendo. Amar.

 

 

 

 

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