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Papo de Domingo: Vamos falar sobre suicídio?

O psiquiatra Caio Magno fala sobre os motivos que levam pessoas a tirarem a própria vida e os sinais de alerta que é preciso observar para buscar ajuda para quem necessita

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10 SET 2017Por Bárbara Farias10h30
Caio Magno fala sobre os motivos que levam as pessoas ao suicídioFoto: Divulgação

O suicídio sempre foi um tabu. Considerado um ato grave perante religiões, omitido pela imprensa em geral na maioria dos casos, exceto quando trata-se de pessoas famosas, e pela sociedade ao longo de décadas, chegou-se à conclusão que é preciso falar abertamente sobre o tema. Com o objetivo de conscientizar e prevenir que pessoas tirem suas próprias vidas, foi criada a Campanha Setembro Amarelo, com o slogan ‘Falar é a Melhor Solução’.

O Setembro Amarelo foi iniciado no Brasil pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). As primeiras atividades foram realizadas em Brasília (DF) em 2014. Em 2015, a campanha conseguiu uma maior exposição com ações em todas as regiões do país. Mundialmente, a Associação Internacional para Prevenção do Suicídio (IASP) estimula a divulgação da causa, vinculada ao dia 10 de setembro, quando é celebrado o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

O psiquiatra Caio Magno fala sobre os motivos que levam as pessoas ao suicídio, os sinais de alerta que é preciso observar entre outras coisas.

Diário do Litoral - Os dados da OMS são preocupantes: cerca de 804 mil casos de suicídio ao ano, o que significa que a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida. Está havendo um aumento nos casos de suicídio? Por que?

Caio Magno - Realmente, segundo os dados do último relatório da Organização Mundial de Saúde, publicado em 2012, o valor absoluto de mortes por suicídio no mundo foi de 804.000 pessoas, o que corresponde a uma morte a cada 40 segundos, com uma frequência de 11,4 suicídios para cada 100.000 habitantes. Entretanto, a própria distribuição entre os diversos países e regiões varia muito. Por exemplo, nas Américas, entre os países de renda baixa a média, a taxa de suicídios por 100.0000 habitantes foi 6,4, enquanto entre todos os países de alta renda do mundo foi 12,9. A região do mundo com maior taxa de suicídio é o sudeste asiático com 17,7 suicídio por 100.000 habitantes. No Brasil, houve crescimento no ano 2000 com 5,6 para 6 por 100.000 no ano de 2015 (OMS), com o norte e nordeste com maior crescimento (mapa da violência 2012). Em relação à faixa etária, tanto no Brasil, quanto no mundo, os jovens dos 15 aos 29 anos são os mais acometidos, contudo no Brasil o maior crescimento foi entre as pessoas com mais de 29 anos (24%) entre 2002 e 2012, segundo dados do mapa da violência 2012. Como o impacto do suicídio é ainda maior sobre o jovem, sendo no mundo a segunda causa de morte por motivos externos e no Brasil a terceira, o resultado é grande impacto psicológico para indivíduos, famílias e comunidades. Os dados também devem ser avaliados com cautela, quando se fala em crescimento desses números porque na verdade, de maneira geral, houve uma redução tanto em números absolutos de 883.000, em 2000, para 803.000, em 2012, quanto relativos, com uma redução de 26%. Existem, contudo, diferenças entre as regiões, por exemplo houve aumento de 38% da taxa de suicídio nos países africanos de renda baixa e média, bem como crescimento no Brasil como relatado acima. Existe ainda um agravante de subnotificação de casos de suicídio devido à estigmatização e ao tabu que é falar sobre isso.

DL – Quais os principais fatores e doenças mentais que podem levar uma pessoa a querer tirar a própria vida?

Caio Magno - Existem fatores de risco relacionados à sociedade e abrangência de serviços de saúde, à comunidade e relações interpessoais e ao próprio indivíduo. Por exemplo, dificuldade de acesso a serviços de saúde, fácil acesso a métodos, estigmatização de pessoas que tentaram suicídio ou que tem problemas com álcool (um grande fator de risco) aumentam o risco do desfecho negativo. Discriminação, abuso, relações conflituosas e violência também contribuem para maiores taxas de suicídio. E, de modo individual, ter apresentado uma tentativa anterior é o maior fator de risco. Outros seriam transtorno mental como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, problemas com álcool, crises financeiras, história de suicídio na família.

DL – O primeiro passo é procurar um médico psiquiatra ou um psicólogo?

Caio Magno - Em relação à abordagem de modo individual, quando há indicativos de risco de suicídio, o primeiro passo é procurar um psiquiatra ou médico capacitado. O profissional irá avaliar se há um transtorno mental, risco de suicídio e proporá medidas terapêuticas e de segurança para essa crise de maneira individualizada. Quando se fala em prevenção de suicídio, muitas esferas estão envolvidas. A OMS, por exemplo, vem estimulando a criação de programas nacionais sistematizados de combate ao suicídio. Tais programas envolvem vigilância, restrição de meios, diretrizes para mídia, redução de estigma, treinamento de profissionais de saúde, policiais, bombeiros e investimento em serviços capacitados para lidar com situações de crises.

DL – O atendimento na rede pública para atender pessoas com transtornos mentais ainda é deficitário. Qual a sua opinião a respeito disso?

Caio Magno - A abrangência dos serviços capacitados para abordar pessoas em risco de suicídio ou que apresentam algum transtorno mental que necessite de tratamento, deixa a desejar. São longas esperas para atendimento em serviços ambulatoriais, há falta de capacitação de profissionais médicos da atenção primária e dificuldade de acesso a serviços de urgência e emergência voltados para saúde mental. Portanto, uma situação que deve ser abordada com brevidade, a fim de que sejam tomadas medidas protetivas, acaba encontrando obstáculos nas esferas de assistência à saúde. É importante que as autoridades competentes estejam cientes e sensibilizadas para o problema a fim de aumentarem os investimentos na área.

DL – Como identificar os sinais de alerta, o pedido de “socorro”? A maioria das pessoas não acredita ou não sabe identificar o risco potencial. O que alguém com a intenção de tirar a própria vida fala ou faz?

Caio Magno - É importante notar mudanças de comportamento da pessoa. Costuma ficar mais isolada, triste, angustiada, sem energia para fazer o que antes exercia. Estar atento ao discurso, se há ideias voltadas para desesperança, falta de perspectiva ou até de morte ou suicídio. Outro ponto importante é prestar atenção a melhoras súbitas quando há depressão envolvida, pois tal fato pode estar relacionado a um planejamento suicida, como se a pessoa tivesse encontrado a solução para sua falta de perspectiva no suicídio. Havendo a suspeita, a questão deve ser abordada e um profissional capacitado para uma avaliação deve ser acionado. Em caso de maior urgência, levar a pessoa até um serviço de pronto atendimento e a família deve se manter vigilante, não deixar a pessoa sozinha e retirar objetos que possam ser utilizados para uma tentativa de suicídio.

DL – Campanha como o Setembro Amarelo tem contribuído para a prevenção e redução dos casos? ‘Falar é a solução’, como diz o slogan, é o ponto chave no sucesso da prevenção?

Caio Magno – Certamente, aumentar o nível de informação da população é muito importante e é um dos objetivos do relatório da OMS publicado em 2012. Ainda existe forte estigma de se falar em suicídio, tanto no Brasil quanto em outros países do mundo. Tanto a mídia, a população em geral, profissionais de saúde, policiais e escolas devem saber abordar o tema suicídio e proporcionar ações eficazes de prevenção, informação e desestigmatização.

DL – É importante ressaltar que a pessoa que comete ou tenta o suicídio não quer tirar a própria vida e sim libertar-se de um sofrimento indescritível, algo como pular de um prédio em chamas. Falar sobre isso é o caminho para combater o estigma de que um potencial suicida ou o suicida é um “covarde”, um “fraco”? Para combater o preconceito?  

Caio Magno – Certamente, a pessoa que se suicida, o faz pois apresenta um grande sentimento de desesperança, ou seja, não consegue enxergar naquele momento uma saída para seus problemas ou para a dor emocional. Com o tratamento e à medida que vai conseguindo perceber que pode ficar bem os pensamentos de suicídio desaparecem. É um sintoma de um problema emocional que ultrapassa a capacidade que a pessoa tem de lidar com a dor ou o estresse. O caminho para combater o estigma é aumentar as ações informativas nas diversas esferas sociais com intuito de mostrar que é um problema de saúde pública e que tem tratamento.

DL – Quais as faixas etárias mais propensas ao suicídio?

Caio Magno - As taxas de suicídio costumam ser baixas entre pessoas com menos de 15 anos e mais altas após os 70 anos. Existem algumas diferenças entre essas taxas em relação à renda do país. Países com elevada renda costumam ter uma maior taxa entre pessoas de meia idade (45-65 anos), enquanto em países de renda baixa a taxa média costuma ser maior entre os adultos mais jovens. No Brasil, a taxa é maior entre os jovens, dos 15 aos 29 anos.

DL – O suicídio ainda é considerado um tabu pela mídia em geral e o setor já discute a forma de dar as notícias sobre casos de suicídio ou tentativas. Durante muito tempo, os casos não foram noticiados, pois acreditava-se que a comunicação dos fatos poderia incentivar outras pessoas a tirarem as próprias vidas. A mídia deve ou não informar os casos de suicídio e qual a forma correta e responsável?

Caio Magno - A forma como se noticia um suicídio, quando feita de forma responsável, segundo dados da literatura científica, pode contribuir para a redução das taxas de suicídio. Deve-se evitar dar detalhes sobre a forma como o suicídio foi praticado, evitar sensacionalismo e glamourização, usar linguagem responsável, evitar simplificação generalizada, orientar o público sobre formas de tratamento e onde procurar ajuda.

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