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Papo de Domingo: Psicóloga investiga os motivos da crise que ronda os 30 anos

Estudos e pesquisas acerca dessa fase sempre existiram, porém, hoje em dia, a crise dos 30 anos tornou-se mais evidente

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19 NOV 2017Por Vanessa Pimentel11h01

As pessoas na faixa dos 30 anos estão, de acordo com a psicologia, próximos a um período chamado “meio da vida”, caracterizado por muitas mudanças, um momento de balanço e revisão do que foi feito até ali e que servirá de base para as escolhas que virão a seguir.

Estudos e pesquisas acerca dessa fase sempre existiram, porém, hoje em dia, como o mundo se tornou mais dinâmico e o leque de possibilidades é cada vez mais amplo, a crise dos 30 anos tornou-se mais evidente.

“A diferença é que hoje temos uma permissão social para falar sobre o desejo de seguir um caminho e trabalhar com algo que faça sentido para nós”, esclarece a psicóloga e especialista em orientação profissional, Bruna Tokunaga.

Motivada pelos comportamentos peculiares da geração com 30 anos, Bruna mergulhou num mestrado e levou a fundo uma grande pesquisa sobre o assunto. O estudo rendeu o livro recém-lançado “A crise dos 30: a adolescência da vida adulta”, pela editora Integrare.

Diário do Litoral - Às vezes, atividades que davam prazer aos 20 e poucos já não trazem mais a mesma sensação aos 30. Esse vazio na identidade pode causar desânimo e até mesmo depressão. O que você sugere para ajudar pessoas nesta situação?

Bruna Tokunaga - Isso é muito comum. A personalidade vai se constituindo e vamos mudando. O contexto e condições externas também mudam. A frustração muitas vezes aparece porque as pessoas são muito resistentes a mudanças e tem dificuldade para se adaptarem a elas. Algumas coisas podem ajudar: nunca se desconecte de você mesmo, fique atento às mudanças ao seu redor e não deixe de experimentar e conhecer coisas novas sempre. Se a crise já tiver se instalado, a recomendação é procurar ajuda. Falar sobre o assunto ajuda bastante. As pessoas têm uma falsa impressão de que somente elas estão passando por questionamentos ou momentos de tristeza e que todos os seus amigos estão felizes e realizados em suas vidas e carreiras. Isso também e reflexo do impacto das redes sociais na vida das pessoas - vemos as pessoas felizes o tempo todo nas redes sociais e isso não condiz com a realidade. Uma outra coisa importante a ser feita é procurar apoio de um bom profissional que irá apoiar este momento de transição.

DL - Outro fator é quando a realidade do mercado de trabalho não condiz com o planejado na época da faculdade. Ao mesmo tempo em que a pessoa não se identifica com o trabalho que realiza, se sente velha para voltar ao banco da universidade ou já tem responsabilidades (como filhos, aluguel, etc) que não permitem jogar tudo para o alto e tentar outros caminhos. O que pode ser feito para amenizar este tipo de situação?

Bruna - Muitas pessoas quando se dão conta que não estão satisfeitas ou realizadas com as suas carreiras e acham que a única forma de mudar é voltar para a faculdade e reiniciar a sua trajetória profissional. Nesta fase dos 30, 40, este é um dilema comum: não sou mais tão novo para começar tudo de novo e, ao mesmo tempo, sou jovem para aceitar ou me conformar com uma carreira que não me realiza. Não necessariamente a pessoa precisa largar tudo ou voltar para a faculdade para fazer uma mudança. É comum, nesta fase, que a pessoa já tenha assumido compromissos que impossibilitam fazer uma mudança radical. A melhor opção é ir experimentando um pouco das coisas que acha que gostaria de fazer - é muito comum as pessoas idealizarem outras carreiras ou possibilidades sem se darem conta da realidade. Se o seu sonho é seguir na carreira acadêmica, por exemplo, procure ser aluno especial durante alguns meses antes de se matricular, converse com pessoas que atuam nomeio para entender a realidade. Se o seu sonho é empreender, comece alguns projetos pequenos de maneira que consiga conciliar com a atividade atual para experimentar como é antes de dar um passo maior. É comum uma idealização de que as carreiras devem ser lineares e crescentes sempre.

Hoje em dia é natural que as pessoas façam e refaçam seus caminhos muitas vezes ao longo de suas trajetórias. As carreiras não são mais como antigamente que você entrava em uma empresa e tinha a certeza que se aposentaria lá.

Uma outra possibilidade: existem cursos de curta duração que possibilitam ter uma boa base nos mais diversos assuntos. Nestes cursos você também terá a oportunidade de ter contato com outras pessoas e profissionais da área do seu interesse. Isso irá te ajudar a ter ideias sobre as possibilidades de caminhos na área que se interessa.

Fazer uma transição é o ideal, mas se aquilo que você quer exige uma decisão mais radical tome sua dose de coragem, faça um planejamento, converse muito com sua família e pessoas próximas e vá. Encontro muitas pessoas que deixaram de seguir seus sonhos e acabaram adoecendo física e mentalmente e enrijecendo suas possibilidades.

DL - Existem pessoas aos 30 anos maduras e bem resolvidas, já outras parecem não querer crescer. Como enxerga esta situação?

Bruna - Existem várias pesquisas sobre os jovens que não querem crescer. São os chamados `adultescentes` ou a `geração canguru`, que mesmo quando tem condições de sair da casa dos pais optam por permanecer. As pessoas que tem em torno de 30 anos hoje foram educadas para se diferenciar no mercado de trabalho. Por conta da alta competitividade, o trabalho e a formação ficaram em primeiro lugar. Em uma pesquisa com pessoas desta faixa etária, quando perguntados se deixariam um relacionamento serio por uma oportunidade no exterior, a maioria disse que priorizaria a carreira. O que aconteceu é que, em várias situações, temos jovens que cresceram profissionalmente, mas são extremamente imaturos emocionalmente. Aqueles que conseguiram evoluir com as situações acabam se diferenciando. Até os 20 e poucos, logo após a faculdade, não existem muitas diferenças, mas aos 30 se evidenciam os caminhos e escolhas que foram feitos. É comum eu receber no consultório pessoas que ficaram sensibilizadas ao se comparar com pessoas da mesma idade como ex-colegas da escola ou faculdade.

DL - A crise dos 30 é mais comum em mulheres ou homens?

Bruna - Recebo em meu consultório um número proporcional de homens e mulheres. As entrevistas e relatos para a realização do livro também foi bem equilibrada. Acho que tem mais a ver com uma antecipação da crise do meio da vida do que com gênero.

DL - Quais as consequências de uma pessoa que está infeliz com suas escolhas aos 30 anos, mas não toma decisões para mudar isso?

Bruna - Vejo dois caminhos: mortificação ou adoecimento. No primeiro caso, a pessoa se mortifica e segue um caminho infeliz, quase que em negação de sua realidade e acaba se afastando de sua essência. Com o tempo vai se amargurando e ficando rígida na forma de conduzir sua vida já que não enxerga outras possibilidades a não ser a porta do `tenho que aguentar porque não tem outra saída`. A segunda saída que o corpo e a mente encontram para lidar com esta situação é o adoecimento, que aparece de diferentes formas: adoecimento físico como gastrites, dores de cabeça muito fortes, dores, ou sofrimento psicológico que pode chegar até doenças como Síndrome do Pânico, Depressão Profunda, Transtorno de Ansiedade, etc. Nos dois casos, a pessoa deixa de desenvolver seu potencial e viver suas possibilidades, o que acarreta em frustrações ou insatisfação, aquela sensação de não estar no caminho certo.

DL - Neste trecho: "Seria a faixa dos 30 anos um possível prolongamento da adolescência ou sobre uma segunda dose da fase típica da juventude? Ou seria realmente uma antecipação das questões antes vividas aos 40? Ou será que os 30 são os novos 20 e, portanto, estamos mais imaturos e lentos do que nossos pais e avós em alguns aspectos?" você chegou a alguma resposta para os questionamentos acima após a pesquisa para o seu mestrado?

Bruna - Não há uma resposta fechada ou simplista para esta pergunta. Porém, o que ficou claro é que apesar de as pessoas desta faixa etária estarem buscando mais sentido e propósito que são características do período conhecido como meio da vida, aos 30, ainda há muito para ser conquistado e provado. Com isso, a maioria das pessoas que conversei sente que gostaria de fazer algo que se aproximasse mais de seu propósito, mas sente também que isso não seria suficiente se para viverem isso tivessem que abrir mão de alguns benefícios.  O grande dilema, na minha opinião, é como encontrar o equilíbrio entre a necessidade de conquista e viver o propósito.

DL - Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o tema e como foi esse processo?

Bruna - Começaram a aparecer muitas pessoas para atendimentos que tinham entre 28 e 35 anos mais ou menos. Antes tinham mais jovens para escolha profissional ou inserção no mercado de trabalho ou adultos pensando uma transição mais velhos, aos 45, 50. Quando fui buscar material para esta faixa etária não encontrei praticamente nada. Eu já tinha a motivação para fazer o mestrado e quando identifiquei este “gap”, o tema me escolheu. Por coincidência, eu estava completando 30 anos no ano que me matriculei no mestrado, há cinco anos atrás. Além dos clientes, muitos amigos estavam se considerando `adultos de verdade` porque iriam completar 30 anos. Achei que seria o momento de aprofundar no tema. Após a pesquisa, na banca da defesa da dissertação de mestrado, os professores presentes incentivaram a publicado académica e comercial. Após a defesa, que tirei 10, passei o ano seguinte transformando a linguagem da dissertação e ampliando a pesquisa. O livro foi publicado em agosto de 2017 pela Editora Integrare.

DL - Os anseios de quem tem 30 anos na geração atual são diferentes dos anseios de quem tinha 30 anos na década de 80. Sendo assim, é possível fazer alguma previsão de como serão as pessoas com 30 anos da próxima geração e como isso pode impactar no comportamento da sociedade em diversos aspectos (como consumismo, desejos, família, etc)?

Bruna - Muitas coisas mudaram de lá para cá. Em certo aspecto, ter 30 anos pode ser ter 30 anos em qualquer época, mas acho que o que o aumento da expectativa de vida, mudanças sociais (casamento e filhos mais tarde, por exemplo), mudanças econômicas (mudanças nas regras da previdência) trouxeram outras reflexões e formas de encarar a crise dos 30. Olhando para frente, como esta geração está casando e tendo filhos mais tarde, a composição das famílias tende a ser diferente. A relação com o trabalho também vai mudar. Esta geração foi a primeira que se apropriou de verdade da ideia de se realizar e ser feliz no trabalho, o que tem exigido das organizações repensar suas lideranças e vinculo de trabalho, mas o fato de ter percebido isso não significa que terá tempo de fazer e vivenciar todas as mudanças. As próximas gerações farão valer esta máxima, o que irá trazer outras formas de atuar e se relacionar.

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