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Papo de Domingo: Professor relata o desafio de lecionar em zona de conflito no Rio

Walter Lopes trabalha em unidade muito próxima ao Complexo do Alemão, uma das comunidades que mais sofrem com a violência e o crime organizado no município

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09 JUL 2017Por Diário do Litoral10h30
Poesia elaborada em oficina ministrada na escola após a morte de estudante em colégio do Complexo da MaréFoto: Reprdução

A violência na cidade do Rio de Janeiro é comparada a situação de países em guerra como a Síria. Somente no primeiro trimestre deste ano, quase duas mil pessoas morreram de forma violenta na capital fluminense. No meio do conflito urbano, milhares de cidadãos lutam pela sobrevivência em um estado que enfrenta grave crise política, econômica e social.

A situação da Síria e do Rio de Janeiro são distintas, mas tem na educação um ponto em comum. Lá crianças vão à escola em meio aos escombros e o medo das bombas. Na 'cidade maravilhosa', o caminho para um futuro melhor passa por entre balas perdidas e a ausência de direitos básicos. Educar em zonas de conflito é um desafio.

Neste Papo de Domingo, o Diário do Litoral traz o relato do professor de história Walter Lopes, 35 anos. Docente de escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro, entre elas a Escola Municipal Gustavo Armbrust, no bairro de Inhaúma, na Zona Norte. A unidade fica muito próxima ao Complexo do Alemão, uma das comunidades que mais sofrem com a violência e o crime organizado no município.

Diário do Litoral - Há quanto tempo você leciona em escolas públicas do Rio de Janeiro?

Walter Lopes - Tomei posse na no dia de 13 de Maio de 2008 (Dia da Abolição da Escravatura, como sempre gosto de lembrar).Já são mais de nove anos servindo a rede municipal de ensino.

Diário do Litoral - Qual o perfil dos seus alunos e da área onde leciona?

Walter Lopes - Temos um perfil muito heterogêneo, que vai desde alunos de comunidades do Complexo do Alemão até moradores de condomínios do bairro. Estudantes de lares e famílias estruturadas, e outros quase que completamente desamparados. As disparidades são às vezes gritantes: em uma "cidade partida" (Zuenir Ventura), a escola também está partida ao meio, por assim dizer. O que tentamos fazer é aproximar e oportunizar diálogos entre mundos separados pelo apartheid social vigente.

Diário do Litoral - Como é ser professor em uma zona de conflito? Aliás, como é ser professor dentro de um contexto de violência urbana e de falta de valorização do profissional da educação?

Walter Lopes - É trabalhar enfrentando uma séries de condicionamentos e limitações que fogem ao nosso domínio. Não é um problema que tenha uma solução administrativa ou pedagógica, foge da alçada da educação, e entra no âmbito da segurança pública. Operações policiais e confrontos ocorrem diariamente, e ainda que sejam naturalizadas pelos alunos, muitas vezes os impedem de irem à escola. Trabalho há quatro anos numa escola próximo ao Complexo do Alemão, não é incomum confrontos entre traficantes e policiais impedirem que os alunos "desçam" à escola. Tenho um aluno de 14 anos do 9° do ensino fundamental  que já perdeu cerca de 20 dias de aula nesse ano. Em geral, registramos no diário como "falta justificada".

Diário do Litoral - Em regiões precárias, onde os direitos básicos são cerceados, ainda que haja uma escola com boa estrutura e corpo docente empenhado, observa-se que o rendimento dos alunos é prejudicado devido à baixa autoestima. Você percebe isso em sala de aula?

Walter Lopes - Certamente. O sociólogo francês Pierre Bourdieu forjou um conceito chamado capital cultural. A bagagem trazida pelo aluno é um capital que ele dispõe na sua jornada como estudante durante o processo de aprendizagem. Imagine um aluno, que acompanhado e motivado pelos pais, visite museus, ganhe livros de presente, assista a filmes ou frequente teatro. Tal aluno tem um bom capital cultural, e seu desempenho escolar será no mínimo regular ou satisfatório. Entretanto, não é o caso de muitos dos nossos alunos que são excluídos. Para esses toda luta já começa em desvantagem.

Diário do Litoral - Os relatos de seus alunos remetem à esperança ou conformismo com a atual situação?

Walter Lopes - Mais o conformismo do que a esperança. É triste constatar que eles não são capazes de vislumbrar um futuro diferente, não pensam sequer em um dia deixarem a comunidade onde vivem para morar em lugar melhor. A relação escola x família é boa? É um fator fundamental para a realização de qualquer projeto político-pedagógico. Não se constrói uma escola que atenda às necessidades dos alunos sem a integração com a família e a comunidade local. No espaço escolar, a primeira diferença perceptível é entre o aluno que tem e o que não tem uma família estruturada com pais e responsáveis presentes. Uma escola de gestão participativa tem como base um conselho formado por direção, professores, funcionários, pais e responsáveis, e, é claro, alunos. Atualmente, enfrentamos esse problema na nossa escola. Não temos pais atuantes e participativos na vida escolar, e ainda estamos trabalhando para a criação de um espaço para o Grêmio estudantil.

Diário do Litoral - Você ainda vê um caminho para a paz e para a solução dos graves problemas que a cidade enfrenta hoje?

Walter Lopes - Se continuarmos com a política de guerra às drogas, com a segregação espacial e criminalização da pobreza, não há esperança no horizonte. Não estamos diante de mazelas eventuais ou conjunturais, mas de um flagelo estrutural cujos assentamentos históricos remontam ao fim da escravidão. Nossos alunos são  em sua maioria, negros e mestiços, ou então, de ascendência nordestina. São essas as jovens almas que animam os uniformes da rede pública de ensino da cidade do Rio de Janeiro. Muitos fazem parte da primeira geração escolarizada de suas respectivas famílias. São filhos de pais analfabetos, semianalfabetos ou analfabetos funcionais, trabalhadores informais ou subempregados. Você acha que matriculando um jovem ou adolescente como esse, entregando a ele um Kit com material didático e uniforme, ele sairá da escola um leitor e plenamente alfabetizado? Não. Somente uma mudança de paradigma pode reavivar nossa esperança. Faz-se necessário debater a descriminalização e criação de um mercado lícito de drogas, desmilitarizar as comunidades e urbanizar as favelas. Sejamos honestos, é trabalho de 50 anos, quiçá de um século, política a longo prazo. Nossos filhos, netos e bisnetos serão herdeiros de todo essa torrencial de violência que, infelizmente, tende a crescer. Como dizia Ariano Suassuna: "O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso". Confesso que, ultimamente, ando mais realista do que esperançoso.

Diário do Litoral - Sobre o futuro dos seus alunos, o que você deseja?

Walter Lopes - O que de melhor eu poderia desejar a alunos excluídos senão a consolidação de sua cidadania plena - de direito e de fato. Existe no senso comum a ideia equivocada de que a educação escolar corrija ou reequilibre as desigualdades sociais, como se ela - a escola - fosse uma instituição messiânica e redentora. Não. A escola é o microcosmo da sociedade. Reproduz suas contradições, hierarquias e preconceitos. O racismo e a homofobia, por exemplo, não são "invenções" escolares. Antes da escola, já estão na família e na sociedade, as primeiras instituições a formarem nossos alunos. A escola é importante no processo de transformação social, mas não podemos olvidar do que compete à política, afinal de contas, educação é matéria de política pública, não é milagre.

Diário do Litoral - Neste período em que leciona, houve alguma história que tenha lhe marcado e que tenha feito você pensar em desistir da sala de aula?

Walter Lopes - Sim, especialmente no início de carreira. Ser professor na rede pública de ensino é aprender a conviver com perdas. Ano passado dois alunos da escola morreram tragicamente, infelizmente um deles já praticava atividade delituosa. Muitos não resistem ao assédio do tráfico. Mas tem um caso que me marcou. Sou professor de uma aluna excelente em todos os sentidos: educada, interessada e participativa nas aulas, notas altas e uma ótima redação. Devido aos confrontos na comunidade ela faltou minha aula. Na semana seguinte me procurou e disse: "Professor, você aceitaria um bilhete que a minha mãe escreveu como justificativa?". Respondi que a falta seria justificada. Ao abrir o bilhete e começar a ler me emocionei com a grandiosidade do gesto daquela mãe. Há seres humanos maravilhosos que são violentados e têm seus direitos lesados ou ameaçados diariamente por viverem em uma zona de guerra, por isso não devemos fazer concessão à barbárie, seja ela operada pelo crime ou pelo Estado.

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