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Papo de Domingo: “A economia está a reboque da política”

O economista Hamilton Marques aborda as expectativas de crescimento econômico para 2017 e dá dicas para enfrentar a crise

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01 JAN 2017Por Diário do Litoral10h00
"Esse governo está direcionando tudo para o mercado financeiro", disseFoto: Rodrigo Montaldi/DL

O cenário econômico brasileiro não deve ter grandes mudanças em 2017. Em uma conjuntura otimista, a previsão é de que com a instabilidade política o crescimento do país fique entre 0,5% e 0,7%. A baixa também não favorecerá o mercado de trabalho, que pode voltar a contratar melhor apenas no segundo semestre do ano.

O Diário do Litoral conversou com o economista Hamilton Marques, diretor da Global Assessoria Empresarial, empresa com sede em Santos, que abordou as projeções para 2017 e as últimas medidas do Governo Federal, como a PEC dos Gastos Públicos, que limita os gastos públicos nos próximos 20 anos. O especialista também deu dicas de como enfrentar a crise com pouco dinheiro.

Diário do Litoral - Qual a previsão da economia para 2017? A expectativa de melhora?

Hamilton Marques - Na melhor das hipóteses existe uma previsão de crescimento em torno de 0,5% a 0,7%. Também existem previsões de estagnação. Tudo vai depender do comportamento político. A economia hoje está a reboque da política.

Diário do Litoral - Esse pequeno crescimento pode aquecer o mercado de trabalho? O Brasil atingiu o número de 12 milhões de desempregados.

Hamilton Marques - A projeção, infelizmente, também é pequena para a geração de empregos. Se houver mais contratações será no segundo semestre de 2017.

Diário do Litoral - O cenário continua o mesmo em 2018 ou a instabilidade política ainda não permitirá?

Hamilton - É imprevisível. Vivemos em um país em que o governo não apresenta seriedade no trato da coisa pública. É difícil garantir que em 2018 estaremos crescendo. Esse ambiente de austeridade que o governo tem proposto é fictício porque não existe crescimento, mas vai existir pagamentos de juros para as letras do Tesouro Nacional - e isso é um bom negócio para o mercado financeiro, que tem lucro, mas para o povo é ruim. Hoje a Europa tem taxas de juros negativos. Nos Estados Unidos a taxa de juros está em torno de 0,5% e no Brasil 14%. Existem investimentos bilionários no mercado de títulos da dívida pública e, nesse mercado, tem que ser garantido para os investidores alguma coisa tipo a PEC dos Gastos, onde o Governo garante na Constituição, por 20 anos, que os gastos estarão atrelados ao crescimento da inflação do período passado. Isso sinaliza para os investidores nacionais e estrangeiros que o Governo tem caixa para pagar os juros da dívida. É um ótimo negócio. Esse governo está direcionando tudo para o mercado financeiro. Se o povo não reagir, o Brasil vai caminhar para uma Venezuela.

Diário do Litoral - Como o senhor enxerga a PEC dos Gastos Públicos? Quais os impactos na economia?

Hamilton - São medidas danosas porque  retira dinheiro do mercado e garante dinheiro para pagar juros, porque o pagamento de juros não entrou na PEC dos Gastos. Os gastos com saúde e educação tendem a ser comprimidos. O meu argumento é de que o Congresso vai ter que priorizar o que é mais importante. Será que os nossos congressistas vão priorizar saúde e educação? É uma falácia.

Diário do Litoral - Se a Reforma da Previdência proposta pelo Governo for aprovada, os brasileiros terão de trabalhar mais anos para garantir a aposentadoria. Alguns não terão essa chance. O que o senhor recomenda?

Hamilton - Que as pessoas organizem a sua vida financeira. A pessoa tem que a partir de hoje ter uma responsabilidade com si próprio. Nós nunca tivemos educação financeira. Nós já tivemos educação religiosa, moral e cívica, mas educação financeira nunca. Pelo contrário, somos induzidos desde crianças a acreditar que trabalhando durante 30 anos a gente seria aposentado, que teria direito a uma pensão digna e estamos vendo que não acontecerá. Não só neste governo, mas em outros que virão e não garantirão mais nada. Recomendo que as pessoas comecem a fazer investimentos no Tesouro Direto, que é comprar títulos da dívida do governo. Esses títulos têm uma remuneração muito boa. Qualquer pessoa pode fazer esse investimento a partir de R$ 30,00.

Diário do Litoral - Como faz esse tipo de investimento?

Hamilton - Não precisa procurar gerente de banco. Aliás, nem deve procurar gerente de banco porque ele vai querer vender o seguro de previdência, que é mais lucrativo para o banco, e o banco pega o dinheiro da pessoa e também vai investir no Tesouro Direto. Nada mais prático que o próprio interessado aplicar no Tesouro Direto. É só entrar no site do Tesouro Direto. Verifica quais são as corretoras que não cobram taxa de administração - algumas cobram outras não - e abrir uma conta. Coloca os dados, eles vão pedir cópia dos documentos pessoais, e no dia seguinte o cadastro é confirmado e a conta aberta. Resolvendo o quanto quer investir faz um TED ou uma transferência bancária. Deposita o dinheiro na corretora. O dinheiro é seu e fica no seu nome. Eles emitem recibo com dados e os valores transferidos. É tudo muito sério. Não existe possibilidade de pegarem o seu ­dinheiro.

Diário do Litoral - Qual a dica para quem começa o ano com pouco dinheiro?

Hamilton - Sugiro que as pessoas façam uma organização da sua vida financeira. Temos o hábito de deixar sempre para depois. É preciso fazer um planejamento do que se quer para o futuro. O ideal é que a pessoa comece a priorizar uma poupança de 10% do que ganha - e isso pode ser aumentado até 20% - o restante vai para pagar conta e consumir. Se não sobra muito dinheiro, se sobra R$ 20,00 R$ 50,00 põe no cofrinho, no bom velho e cofrinho. Depois de um período abre o cofrinho e vai aplicar no Tesouro Direto. Essa é a melhor recomendação para que as pessoas possam comprar o bem de consumo que precisam sem fazer prestação. Aliás, recomendo que não se faça prestação de mais nada - nem no cartão de crédito e nem no carnê. Se quer comprar determinado bem faça a prestação para a própria conta. Quando tiver dinheiro suficiente vai na loja e compra. É um pouco mais demorado, mas, em compensação, não terá dívidas. Se tiver que fazer dívida, porque as dívidas são muitas vezes inevitáveis, que se faça com bastante critério, tendo noção de quanto já comprometeu a sua renda.

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