22h : 29min

Conheça o
Caderno + DL

Ler

Assine o Jornal por R$8
por mês no plano atual

AssineLer Jornal

Os desafios de uma professora

No Dia do Professor, Evelin Agria, que leciona em uma escola de Cubatão fala do amor à profissão

Comentar
Compartilhar
15 OUT 2016Por Daniela Origuela10h30
Evelin deixou o cargo de Técnico Administrativo e encarou a missão de ser professoraFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Ela utiliza um trecho de ‘Resíduo’, poema de Carlos Drummond de Andrade, para resumir o seu papel: “Se de tudo fica um pouco, por que não ficaria um pouco de mim?”. Há seis anos, Evelin Agria, 34 anos, trocou o escritório pela sala de aula. Apesar das dificuldades e dos desafios que enfrenta todos os dias, não se vê mais distante do ambiente escolar. É em uma escola municipal de Cubatão onde a professora de português deixa um pouco de si e do desejo de transformar a sociedade por meio da educação.

“Na sala de aula me sinto útil. Não me imagino mais dentro de um escritório. Tem um texto de Drummond que fala que de tudo fica um pouco. Por mais que não seja fácil, que tenham as dificuldades sei que estou mudando um pouco a vida de um aluno e ele a minha também. O aprendizado é uma troca. Digo que ninguém é tão grande que não possa aprender e tão pequeno que não possa ensinar”, afirmou a professora.

Formada em Relações Públicas, em 2003, Evelin trabalhava na área de comunicação da Prefeitura de Cubatão como Técnica Administrativa, mas sentia que ainda faltava algo em sua vida. A habilidade na correção de textos e a oportunidade de uma bolsa de estudos, em 2006, a levaram de volta aos bancos da universidade. Optou pelo curso de Letras. Foi durante o estágio que teve a certeza da mudança ­profissional.

“Era muito boa na revisão de texto. Na faculdade tive matérias que abordavam questões da didática e da educação. Foi aí que disse: é isso que quero para a minha vida”, destacou Evelin, que prestou concurso público e passou de técnica administrativa para professora.

Atualmente Evelin ministra aulas de português na UME Luiz Pieruzzi Netto, na Vila Nova, em Cubatão. A escola atende crianças e adolescentes dos bairros Vila Esperança, Vila Natal, Vila Noel e Costa Muniz, alguns dos mais carentes da cidade. Nas redes sociais, a professora, às vezes, descreve situações que passa em sala de aula, muitas delas provocadas pelo contraste social, e que levam à reflexão.

“Você não sabe a história de todos os alunos, mas sabe que tem aluno que fica ansioso pela hora da merenda porque, às vezes, é a alimentação mais reforçada que terá naquele dia. São muitas as histórias de vida. Temos alunos de abrigo, que estão abrigados desde os sete anos. Sou muito emotiva. Às vezes tento me distanciar, mas é difícil. É preciso manter o respeito, mas sinto que sou amiga dos meus alunos. Essa relação de igualdade tem que rolar”, afirmou.

A ausência da família é uma das dificuldades apontadas por Evelin no ambiente escolar. “Falta mais parceria da família. A gente sabe que não é tão fácil comparecer em todas as reuniões porque as pessoas trabalham, mas há casos que enfrentamos de aluno com baixo desempenho escolar e agressividade e não contamos com o amparo da família até para identificar o problema. E isso independente da condição social. A presença de um responsável na vida do aluno faz a diferença”, disse Evelin ­emocionada.

Dia desses, a professora de português trabalhou com os alunos o tema utopia. Perguntou a eles o que seria uma escola ideal. A resposta: que tivesse ar condicionado. “Vivemos um tempo onde a tecnologia acompanha eles. A gente sente falta de ter material tecnológico em sala de aula. De ter uma lousa digital e poder navegar, mas nem wifi temos. Acho que esse também é um desafio. A escola precisa acompanhar a evolução. O mundo muda a cada segundo, mas a escola permanece a mesma”, afirmou.

A utopia da valorização profissional   

Apesar de conviver com dificuldades inerentes a profissão de professor, Evelin disse que se sente privilegiada por trabalhar em uma escola que não tem muitos problemas. No entanto reconhece a necessidade de valorização da profissão e da educação. Optou em lecionar em apenas em uma escola por ter uma filha de dois anos, mas sabe que a vida do docente é se dividir entre várias unidades na busca por condições melhores de vida.

“O professor vive hoje diante da falta de valorização, falta de estrutura, falta de estímulo e salários baixos. Vivenciamos a diminuição do número de professores formados nos cursos de licenciatura. Isso tudo provocado pelo acúmulo de trabalho e a desvalorização que desmotiva. Há colegas que já pensam largar a profissão e tentar a sorte em outras áreas. Às vezes a gente se sente dando murro em ponta de faca”, afirmou Evelin.

A professora também abordou a formação profissional. “A formação do professor também é muito falha na universidade. Se tem muitas vagas para o curso de pedagogia, por exemplo. As mensalidades são baixas e a procura acaba sendo alta, até porque se trata de um diploma de nível superior, mas é comum ver professor formado inserido no mercado de trabalho ganhando pouco, muito pouco”, destacou.

Assim como perguntou aos alunos o que seria uma escola ideal, a Reportagem também questionou Evelin sobre o assunto: “Me pego pensando sobre o sistema de educação ideal. Não sei como, mas sei que deve ser novo, mais antenado com a tecnologia. Uma escola com mais debate e discussão, e que leve o aluno a refletir sobre si e sobre a vida”, afirmou.

Colunas

Contraponto

Construtora CredLar