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‘Ela está partindo sem que possamos fazer nada’, afirma irmão de paciente

Família de Ivanice Ferreira da Silva aguarda há meses um diagnóstico conclusivo; suspeita já foi de derrame até a doença de Creutzfeldt-Jakob

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09 MAR 2017Por Rafaella Martinez10h30
De acordo com Damião Ferreira, irmão da paciente internada, família aguarda há 45 dias pelo resultado de um exame que pode auxiliar no diagnóstico da doençaFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Há quatro meses uma família de Santos aguarda por respostas sobre a doença misteriosa que fez a ajudante de restaurante Ivanice Ferreira da Silva, de 42 anos, perder consideravelmente a capacidade motora e a fala. Internada no Hospital Ana Costa de Santos, o caso é investigado agora como suspeita de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma patologia comumente associada com o mal da vaca louca.

Em nota, o hospital admitiu que a paciente possui ‘forte suspeita clínica e laboratorial da DCJ’. No entanto, ‘não se trata da forma variante da doença, popularmente conhecida como doença da vaca louca, para a qual faltam elementos epidemiológicos que corroborem tal hipótese’.

Afirma ainda que as autoridades sanitárias estão notificadas e não há nenhuma medida excepcional a ser adotada em relação às pessoas e profissionais que tem ou tiveram contato com a paciente. O hospital afirma ainda que não há qualquer risco adicional à comunidade e nenhuma orientação que restrinja o consumo de carne bovina.

Os sintomas começaram há quatro meses, quando Ivanice começou a sentir dormência nas mãos e dores de cabeças fortes, além de oscilações de humor e lapsos de memória. Pouco tempo depois ela começou a perder forças nas pernas e nos demais músculos do corpo, precisando parar de trabalhar e passar boa parte do tempo acamada.

Damião Ferreira, irmão de Ivanice, conta que assim que a ajudante foi internada a equipe médica solicitou uma ressonância magnética, que apontou algumas lesões no cérebro. “Eles perguntaram se ela teve episódios de quedas, mas isso nunca aconteceu. Ela sempre foi muito ativa, trabalhadora, dona de casa e mãe participativa. Estamos desesperados e buscando respostas antes que ela se vá”, conta.

Sem uma confirmação, a paciente está sendo tratada, de acordo com a família, a base de relaxantes musculares, soro e calmantes. “Como minha irmã consegue respirar naturalmente, ela segue internada em um quarto comum e não na UTI. Ela passou 30 dias internada antes, mas foi liberada. 21 dias depois ela parou de falar e perdeu a capacidade de comer sozinha e por esse motivo precisou retornar para internação, para ser alimentada por uma sonda”, afirma Damião.

Diagnóstico

De acordo com o irmão da paciente, a equipe médica do hospital já fez mais de 60 exames e todos os diagnósticos foram inconclusivos. Ele conta também que buscou um neurologista particular, mas o posicionamento foi o mesmo dos profissionais do hospital.

“Primeiro acharam que era derrame. Depois suspeitaram de Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Mas como a doença está progredindo muito rápido, a equipe de neurologia começou a suspeitar dessa doença. Até o momento a única certeza é que se trata de uma doença degenerativa grave e com poucos recursos”, conta.

De acordo com ele, há 45 dias foi colhido um material genético da coluna da paciente, cujo resultado pode auxiliar no diagnóstico. No entanto,  não há previsão para que o laudo seja divulgado.

“A justificativa do hospital é que poucos laboratórios do Brasil analisam esse material. Nós não culpamos o hospital, sabemos que eles estão fazendo o possível para nos ajudar, mas não queremos que ela vá embora sem ao menos saber o que ela tem para que possamos lutar efetivamente contra a doença”, desabafa Damião.

Questionado sobre a demora no resultado do exame da paciente o ­hospital não se pronunciou. Procurada, a Seção de Vigilância Epidemiológica disse apenas que não foi notificada sobre casos de Creutzfeldt-Jakob (DCJ).

Sobre a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ)

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) ou encefalopongiforme subaguda é uma infecção progressiva. Seus principais sintomas são espasmos musculares e perda progressiva de função mental, mas a doença pode passar anos sem se manifestar.

O mal tem três origens distintas: esporádica, herdada geneticamente ou infecciosa, com a ingestão de carne bovina contaminada. Em humanos, a chance de contrair a doença por contaminação é de 5%.

No Rio de Janeiro, quatro pessoas com suspeita da doença Creutzfeldt-Jakob foram atendidas em três hospitais particulares de Niterói, entre o fim de 2016 e o início deste mês. Até o momento nenhuma suspeita foi confirmada. Em dezembro do ano passado um homem morreu em Recife com suspeita da doença.

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