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Da cidade portuária, o teatro viaja a bordo de um contêiner

Caixa de aço equipada com placas solares já visitou 200 cidades brasileiras transportando riquezas imateriais

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16 OUT 2016Por Rafaella Martinez10h00
O que cabe dentro de um contêiner? Caminhão-palco itinerante do Teatro a Bordo roda o Brasil levando apresentações, intervenções artísticas e oficinas educativasFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Na cidade que abriga o maior porto da América Latina, onde são transportados mensalmente mais de 300 mil contêineres, um específico chama a atenção. Com a mesma estrutura dos demais, a caixa de aço colorida e desenhada, assim como os outros, também transporta riquezas do País. No entanto, o que viaja dentro do ‘caixola’ tem valor imaterial: há oito anos, de sol a sol nas estradas, o Teatro a Bordo já visitou 200 cidades brasileiras, levando apresentações, intervenções artísticas e oficinas educativas para regiões de um Brasil que muitas vezes o próprio Brasil desconhece.

A ideia de transformar um contêiner comum em palco, utilizando os mesmos recursos cênicos dos espaços convencionais, surgiu em 2007, durante um curso de Gestão Cultural que a atriz Talita Berthi frequentou.

A proposta final do projeto era mapear e propor soluções para as necessidades culturais da região.
“Um dos maiores empecilhos na Baixada Santista é a deficiência de espaços culturais para apresentações.

O uso de espaços alternativos é uma opção, mas sentia falta da qualidade técnica e dos recursos cênicos disponíveis nos espaços convencionais. Não fazer a estética própria do teatro de rua e sim levar o teatro para a rua”.

A produtora acrescenta que o uso do contêiner é baseado principalmente no fato da caixa de aço ser um símbolo de troca. “Nas apresentações pelo Brasil, sempre levamos a cultura daqui e trazemos dentro dele o que as regiões visitadas têm de riqueza cultural. Fechado, o nosso ‘caixola’ é igual um contêiner comum.

O que está dentro dele é que muda essa visão”, afirma.

Trocas

A estadia em cidades brasileiras se dá de uma mesma forma. Quando chega, o grupo promove o tradicional ‘Cortejo de Chegança’ nas escolas e vias públicas, convidando os moradores para a apresentação. Em cada cidade, dois grupos ou artistas locais também são convidados para se apresentar no contêiner. Em oito anos, mais de 200 grupos e artistas brasileiros já apresentaram sua arte e registraram suas memórias nas paredes de aço do contêiner.

“Além da troca, o projeto proporciona o encontro entre as pessoas das comunidades. Nós vamos para a praça e depois que vamos embora a história fica naquela praça”, aponta o produtor Douglas Zanovelli.

Pelo tamanho do projeto, o Teatro a Bordo funciona à base de leis de incentivo. “Ele sempre foi um projeto pensado para ser gratuito e em espaços descentralizados, como os bairros e periferias. A proposta de ter todo o recurso técnico é justamente estar com o teatro em sua forma clássica aonde costumeiramente a arte não chega”, afirma.

Arte e integração

A arte do Teatro a Bordo anda de mãos dadas com a área técnica, responsável por colocar a magia do contêiner para funcionar.

“A caminhada sempre foi em conjunto, desde que o Teatro a Bordo surgiu. Quando o projeto foi aprovado em um edital e recebeu recursos para existir veio o frio na barriga de colocar em prática tudo aquilo que estava no papel. Como seria possível criar algo que em movimento é contêiner normal e parado é um palco?”, relembra Talita.

A solução veio com o apoio de profissionais de fora do teatro, mas que são fundamentais para que a arte aconteça. Embora já tenha rodado o Brasil em diversas ocasiões, cada realidade encontrada faz com que o ‘caixola’ se aprimore.

“Na estrada a gente aprende a se adaptar aos imprevistos. No início era só palco, torres de iluminação e sistema de som. Com o tempo, acrescentamos os banquinhos e a tenda para proteger contra a chuva e o sol.

Tudo é processo”, afirma Silésio Amorim, coordenador técnico do projeto.

O trabalho do Teatro a Bordo pode ser conferido no site www.teatroabordo.com.br.

Oito anos de sol a sol nas estradas

A trajetória do Teatro a Bordo foi tema para o mais recente espetáculo do Grupo Teatro Aberto: ‘De sol a sol’. No palco, o personagem principal é o ‘caixola’, em uma apresentação onde os atores revivem passagens, costumes e momentos marcantes das viagens pelo Brasil.

O sol, que acompanha há oito anos as muitas paisagens que a trupe já vislumbrou, é também o atual responsável pela iluminação cênica das apresentações: com o objetivo de aliar a democratização do acesso à cultura com a sustentabilidade, o Teatro a Bordo passou a ser, em 2015, o primeiro teatro móvel solar do Brasil.

“Aliamos passado e presente. Nos inspiramos nas trupes de commedia dell’arte, que cruzaram a Europa entre os séculos XV e XVIII em carroças e, muitas vezes, criavam efeitos de luz em seus espetáculos com o sol refletido em espelhos. Além disso, a equipe técnica não precisa se preocupar com a busca por pontos de energia em bairros distantes ou cidades rurais que visitamos. Essa é a função da arte: apontar novos caminhos”, pondera Douglas Zanovelli.

A instalação de módulos fotovoltaicos no contêiner-teatro para transformar a energia solar em energia elétrica aconteceu com o apoio do Instituto Ideal. “Dessa forma, é possível suprir 100% da demanda dos equipamentos de iluminação dos espetáculos. Além de ser muito inspirador contar com a presença do sol durante a noite, estamos utilizando energia limpa, aliando arte e sustentabilidade na democratização do acesso à cultura”, finaliza Talita Berthi.

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