Baixada Santista tem dificuldade em formar professores

Falta de universidades públicas e baixa procura influenciam no cenário

Comentar
Compartilhar
20 AGO 2017Por Vanessa Pimentel09h00
Modelo atual da educação no Brasil, falta de investimento e sucateamento das escolas foram alguns dos motivos citados para explicar desisnteresse em ser professorFoto: Matheus Tagé/DL

Andreia Kelly tinha 19 anos quando decidiu que cursaria Letras. Foi a paixão pelos livros e idiomas que a levou a fazer esta escolha. O impasse para realizar o sonho da faculdade era financeiro. “Minha irmã cursava Direito em faculdade particular e minha mãe não podia arcar com duas mensalidades”, explica Andreia.

A dificuldade aliada com o desejo fez com que Andreia estudasse mais e se preparasse para o vestibular de uma universidade pública, conhecido pelo alto nível de dificuldade da prova e da concorrência por vagas. Na época, em meados de 2002, segundo Andreia, não havia na Baixada Santista nenhuma universidade pública que oferecesse cursos de licenciatura, ou seja, aquele que prepara o estudante para ser professor. A solução encontrada por ela foi sair da cidade.

“Passei na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Assis, interior do estado, e também em uma particular, mas pelos cálculos eu ia gastar menos morando em outro lugar do que pagando a mensalidade em Santos. É difícil, no começo, ficar sozinha em outra cidade, mas tive que me adaptar”, explica Andreia.

Desde então, o cenário da graduação pública voltada à licenciatura não mudou muito por aqui. Atualmente, existem na Baixada Santista, cinco universidades públicas com cursos voltados a Tecnologia, Logística, Saúde e Biologia Marinha.  

A falta de cursos voltados à licenciatura na Baixada Santista manteve Andreia longe de casa por longos anos. “Fiz pós-graduação e mestrado no Interior porque aqui não tinha opções. Não ter universidades públicas atrapalha até mesmo o desenvolvimento da nossa Região, já que as pesquisas nos mais diversos setores são realizadas por estas instituições“, explica Andreia.

André Navajas Madio, atualmente, é professor, mas para seguir pelo caminho profissional que escolheu, também precisou ir embora. Fez história na Universidade de São Paulo (USP) e voltou para lecionar em terra natal.

Para ele, a falta de universidades públicas não é um problema isolado, mas de todo o país. “No ensino básico tem mais escola pública e de baixa qualidade. No ensino superior isso se inverte e as universidades públicas se tornam instituições de excelência. Então, só aquelas pessoas muito favorecidas conseguem entrar no ensino superior público“, analisa André.

Outra preocupação citada pelo docente é o interesse na privatização de instituições propostas pelo atual governo. A ideia, segundo ele, beneficia os conglomerados da educação. “É interessante, para eles, que as universidades públicas percam a qualidade, assim as pessoas terão que pagar mensalidade em instituições particulares. A falta de investimentos públicos na educação deixa isso claro“, ­justifica.  

Reforma

Outra questão que preocupa o historiador quando se fala em educação é a reforma do ensino médio que flexibiliza o conteúdo ensinado aos alunos. “O que nós vemos hoje é a destruição da educação, do seu potencial crítico em formar pessoas críticas, passando a oferecer um ensino completamente técnico no país. A ideia é que as pessoas carentes se tornem técnicos e os ricos, bacharéis”, cita André.  

Instituição particular fecha turmas por baixa demanda

Simone Batista é doutora em educação pela USP e atualmente coordena o curso de Pedagogia do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), em Santos, uma universidade privada.
Ela conta que as turmas de Letras, Matemática e Biologia foram fechadas nos últimos anos por não haver alunos interessados nos cursos.

“A universidade não consegue mantê-los se a procura é baixa. Acredito que esse desinteresse vem da desvalorização da profissão“, diz Simone.  

Para os educadores, o sistema educacional precisa de mudanças (Foto: Matheus Tagé/DL)

Professores dizem que sistema educacional precisa se renovar

Fabiana Moreira Brito, Eliana Barbalho, Francisco Alexsandro de Morais, Everton da Silva Batista e André Navajas são professores de uma escola municipal em São Vicente. Andreia Kelly dá aulas na rede municipal de Santos e Simone Batista, na rede particular.

Mesmo em cenários diferentes, todos, quando questionados pela Reportagem sobre a educação do país, foram unânimes em dizer que ela precisa de mudanças.

Citaram, em comum, amar a educação e que não trocariam a profissão por nenhuma outra, mas que não é raro ouvir das pessoas um sonoro “que pena“ quando contam que são professores.

“Essa postura de desvalorizar a profissão vem de todos os lugares. Não é pena ser professor, é um orgulho. Existem histórias de alunos que mudaram totalmente as suas perspectivas, após terem aulas com determinados professores. É difícil ser professor nesse país, mas jamais é uma pena“, afirma a professora de História, Fabiana.

Para Simone, uma maneira de atrair mais pessoas para os cursos de licenciatura seria o oferecimento de bolsas pelo governo e até mesmo no ensino privado, aos melhores alunos do ensino médio. “Acredito que a sociedade está acordando e os movimentos que buscam valorizar esta profissão - que dá sentido para a vida - estão crescendo. A sociedade sempre irá precisar de professores“, declara Simone.

A posição das salas de aula – cadeiras enfileiradas e professor à frente, falta da implementação da tecnologia - como lousas digitais, falta de crença na importância da formação do pensamento crítico através das aulas de História e Filosofia, por exemplo, foram alguns dos fatores citados pelos docentes ao falarem sobre as mudanças que o sistema, principalmente o Fundamental e Médio público, precisa para se tornar mais atraente e, consequentemente, voltar a ser uma opção de escolha daqueles que hoje ainda são alunos.

Universidades Públicas

A Baixada Santista e o Vale do Ribeira somam 34 cidades e mais de dois milhões de habitantes, mas possuem atualmente, cinco universidades públicas para atender a demanda.

Três são estaduais: a Faculdade de Tecnologia (Fatec), em Santos e Praia Grande; o campus santista de Petróleo e Gás da Universidade de São Paulo (USP); e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Vicente. Duas são federais: campus cubatense do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFSP) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O campus da USP, em Santos, oferece o curso de Engenharia do Petróleo e informou que não há previsão de novos cursos.  

A Fatec Rubens Lara oferece curso superior de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Gestão Empresarial, Gestão Portuária, Logística e Sistemas para Internet. Também sem previsão de novos cursos.

A Unifesp oferece nove cursos, sendo: Educação Física (Bacharelado), Fisioterapia, Nutrição, Psicologia, Terapia Ocupacional, Serviço Social, Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia do Mar, Engenharia de Petróleo e Recursos Renováveis e Engenharia Ambiental. Segundo assessoria, o campus Baixada Santista planeja a abertura de licenciatura nas áreas de Educação Física e Psicologia.

O Instituto Federal de Cubatão oferece cursos de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas; Tecnologia em Automação Industrial; Tecnologia em Gestão de Turismo; Engenharia de Controle e Automação e Licenciatura em Matemática. Já a Unesp tem, na área de licenciatura, o curso de Ciências Biológicas.

Colunas

Contraponto