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Atração no Mercado de Peixes, garças 'roubam' pescado e dão prejuízo de até R$ 300

Convívio entre aves e comerciantes é harmonioso. Animais passam o dia no local e proporcionam cenas engraçadas

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05 JUL 2017Por Daniela Origuela10h00
Beleza das aves, que ficam no telhado dos boxes de pescados na Ponta da Praia, chama a atenção dos frequentadores do local; duas espécies são encontradas por láFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Elas chamam a atenção de quem passa pelo Mercado do Peixe de Santos, na Ponta da Praia. Espalhadas pelo telhado dos boxes, as garças são uma atração à parte. As aves de penas brancas e pernas longas convivem harmoniosamente com comerciantes e clientes. Atraídos pelos pescados, os animais passam o dia no local e proporcionam cenas engraçadas ao ‘roubarem’ camarões e pequenos peixes das bancas.

“Gostam mais de camarão e sardinha. Começaram a aparecer aqui há uns dois anos. Comem peixes até 300 gramas. Eu chego para trabalhar às 5h30 e elas chegam comigo. Quando dava umas 13 horas elas iam embora. Agora ficam até às 17 horas”, disse o comerciante Arnor Miguel Batista.

A afinidade das aves, cerca de 30 que aparece no local todos os dias, com Arnor é grande. Enquanto a Reportagem estava lá, um dos animais, de menor porte, respondeu ao chamado do comerciante. Outra ave, essa em cima de um carro, servia de modelo para um cliente que fazia fotos com o celular.

“A gente dá sempre um agrado para elas. São exigentes. Gostam de camarão grande. Às vezes estamos distraídos, elas vêm e pegam da banca. O prejuízo chega a R$ 300, mas estamos acostumados com elas já. O pessoal que vem aqui também gosta. Essa aí, a menor, é só eu chamar que ela vem”, destacou o comerciante.

Vínculo

As garças são comuns em todo o território brasileiro. Aves que vivem em ambientes como lagos, lagos, mares, beira de praias, canais e mangues. Segundo o biólogo e veterinário Nereston (Nelinho) Camargo há diferenças entre as espécies encontradas no Mercado do Peixe e o surgimento delas no local pode ter sido provocado pela oferta de comida e o vínculo com aquele espaço.  

“São aves que se aproveitam do descarte de pescado. Peixes que não são aproveitados pelos pescadores, jogados ao mar. Muitas espécies de aves, principalmente as marinhas aprenderam a conseguir alimento dessa forma. Seria uma maneira mais fácil de caçar. Essa técnica vai passando de pai para filho. Muitas aves seguem os barcos, pois sabem da oferta de alimento. Foi justamente o que aconteceu no Mercado. Provavelmente uma ou duas garças foram alimentadas pelos vendedores e formaram um vínculo”, afirmou o especialista. “Não foi provocado por um desequilíbrio no ecossistema, pois na época da reprodução elas partem para os ninhais”, completou.

São duas as espécies encontradas no Mercado Municipal, a Garça Branca Grande e a Garça Branca Pequena. “Para muitos a pequena parece ser o filhote da grande, mas não é. A diferença básica para identificação é o tamanho e a coloração do bico. A maior possui o bico amarelo e a menor possui o bico preto”, explicou Nelinho. “A alimentação é diferenciada, pois a espécie maior também pode se alimentar de pequenos vertebrados como anfíbios, mamíferos e reptéis”, ressaltou.

Cuidados

Ainda de acordo com o especialista, a convivência entre as aves, consideradas tranquilas, e os seres humanos pode ser harmoniosa, como visto lá no Mercado do Peixe. No entanto, alguns cuidados são necessários para evitar acidentes.

“Evitar que pessoas tentem manusear ou capturar. Elas podem tentar se defender e machucar com seu bico. Por exemplo, o animal pode investir com uma bicada nos olhos da pessoa que tentar captura-lo, pois os olhos refletem luz e chamam atenção da ave que, por defesa, atacará naquele ponto chamativo. No mais são animais tranquilos e que não atacam se não forem molestados”, destacou Nelinho.

Outro destaque é para a prevenção de doenças. “Toda ave pode ter doenças e transmiti-las aos homens. Porém, como o ambiente é aberto e todo dia é realizado a limpeza, não há problema. O ideal é que não deixem subir nas bancadas, pois elas podem defecar e com o tempo ficar mais ousadas. Evitar contato direto com o animal e o alimento como especifica, que é um cuidado básico de higiene”, ressaltou o especialista.

Arnor Miguel Batista, 61 anos, vendeu água na praia e há 36 anos investiu economias nos pescados (Foto: Rodrigo Montaldi/DL)

Paraibano muda de vida com o peixe em Santos

O bem humorado comerciante Arnor Miguel Batista, 61 anos, que fala à Reportagem sobre a relação das garças com o Mercado do Peixe, logo conta a sua história com o local também. Saiu da Paraíba com 22 anos em direção a Santos e, na cidade, mudou de vida ao investir as economias da poupança em um dos recém-inaugurados boxes de pescados há 36 anos.  

“Vim sozinho para cá com 22 anos. Era do exército lá. Sai e fui primeiro para o Rio de Janeiro. Depois cheguei aqui e logo fui vender água na praia com o isopor. No final do dia ia vender cachorro quente e depois até às 22 horas cerveja. Morava de favor na lojinha de um primo”, lembrou Arnor.

Com uma reserva que havia na poupança juntou as economias com a do primo e comprou um box do então recém inaugurado Mercado do Peixe na Ponta da Praia. “Desde então trabalho de domingo a domingo. São 36 anos assim. Só folgo Natal e Ano Novo. Criei dois filhos. Um é arquiteto e a outra é publicitária. Comprei casas. Aqui construí a minha vida e devo tudo o que tenho”, destacou Arnor.

O comerciante, que cursou apenas a primeira série do ensino fundamental, se orgulha da sua história. Apesar da crise econômica, que reduziu a venda de R$ 12 mil diária para R$ 6 mil, o comércio que iniciou com apenas dois empregados hoje conta com 14 funcionários. “O melhor pescado da Baixada Santista está aqui. Adoro o meu trabalho. Quando vim para cá não tinha dinheiro, não tinha nada. Se for contar toda a minha história dá um livro”, disse.

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