14h : 30min

Conheça o
Caderno + DL

Ler

Assine o Jornal por R$8
por mês no plano atual

AssineLer Jornal

Alunos de São Vicente visitam Federal de Cubatão

Ideia partiu da professora de matemática de uma escola da cidade. Objetivo é incentivar universitários a continuarem os estudos pós ensino-médio

Comentar
Compartilhar
15 JUN 2017Por Vanessa Pimentel10h50
Alunos só souberam da existência do Instituto após um bate-papo em sala de aula sobre o futuro profissionalFoto: Rodrigo Montaldi/DL

“Ver alunos da escola pública ocupando espaços em instituições federais é muito gratificante”, diz sorrindo a professora de matemática Eliana Barbalho, enquanto observa 23 alunos da Emef Lúcio Martins Rodrigues, de São Vicente, passearem pela primeira vez pelos corredores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, emCubatão.

Localizada na Vila Margarida, a escola atende cerca de 800 alunos do próprio bairro e dos arredores, com idade entre 14 e 18 anos. Segundo a professora, a ideia da visita surgiu, após perceber durante os bate-papos em sala de aula que muitos jovens do Lucio, geralmente de classe social mais baixa, não tinham perspectiva ao pensar no futuro.

“Eu sempre falo para eles que não é porque moram no México 70 que tem que se acostumar com migalhas. A única coisa que ninguém tira da gente é o conhecimento. Quando se é professor da rede pública, educar vai além de ensinar a matéria. É preciso saber ouvir, compreender a realidade que alguns alunos enfrentam dentro de casa porque isso influencia no comportamento deles”, afirma Eliana.

Ela conta que a maioria dos alunos não sabia da existência do Instituto Federal de Cubatão, nem das opções de cursos profissionalizantes que existem e podem ser cursados durante ou após o ensino médio. Desde então, passou a ensinar mais do que matemática, levando para dentro da sala de aula o mundo que existe além da Vila Margarida. Outro ponto que faz questão de levantar, é que enxerga no bairro muita gente boa e não gosta de ver a ‘Vila’ ser retratada somente pela ótica da violência.

“É preciso mostrar que os jovens podem escolher, que há opções e os professores são responsáveis por esse incentivo. O problema é que muitos de nós desanimam porque não somos  valorizados. É um ciclo: salários ruins, alunos com histórico violento, falta de estrutura nas escolas. Fatores que se unem e acabam com o prazer de exercer o ofício”, justifica a professora.

A fala acima mostra que Eliana entende a falta de motivação profissional de alguns colegas, mas isso não se aplica a ela. Com tom de voz e postura altivos, a educadora atrai os olhares dos 23 alunos que se mantém em silêncio ao ouvirem dizeres sobre profissões, o processo dos vestibulares, os sacrifícios da vida acadêmica – em especial àqueles que precisam conciliar trabalho e estudo - e sonhos.

Visita

Durante a visita, os estudantes ouviram explicações sobre os cursos oferecidos pela instituição e como fazer para participar. Depois, um ex-aluno da professora Eliana, Lucas Gomes dos Santos, de 16 anos, que hoje está no primeiro ano de Informática pela Federal, conversou com eles para contar sobre os desafios da vida de quem optou por estudar.

Até ano passado, era ele um dos alunos a ouvir da professora, dicas sobre o mundo universitário. Até que viu pela internet o anúncio do vestibular e decidiu tentar. Passou. Desde então, todo dia ele sai de bicicleta de São Vicente em direção a Cubatão e estuda das 7h15 às 12h, com aulas de reforço nas tardes de quarta e quinta-feira.

“Quem quer passar em algum vestibular precisa prestar atenção nos jornais, nas notícias sobre política e atualidades. Isso cai na prova. E depois é se dedicar, porque se você gosta do que faz, vai fazer bem”, explica Lucas aos alunos.

Um deles, Mikael Francisco dos Santos, de 17 anos, diz que pensa em fazer faculdade de música. “Aprendi a tocar flauta e violão na igreja. Agora quero estudar mais sobre esse universo”, explica.

Já Guilherme Duarte, Luana Porfírio e Samuel Oliveira querem seguir pela área da medicina. Eriel de Jesus Sousa que ser engenheiro civil.

“É um crime dizer aos alunos das escolas públicas que eles não podem. Faltam sonhos e pessoas dizendo para eles que eles são capazes e nossa... Como é difícil plantar a ideia sobre vencer através da educação”, declara Eliana.

Porém, ao olhar os sorrisos curiosos dos alunos observando um microscópio do laboratório, Lucas dizendo que pretende ser professor e os desejos profissionais dos alunos, a semente jogada pela professora de matemática parece ter florescido.

O próximo lugar a ser explorado pelos alunos será o Senai, durante a feira de profissões marcada para acontecer no segundo semestre. Os R$30 necessários para a visita, de acordo com os alunos, já estão separados.

 

Colunas

Contraponto