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A busca pela identidade: os desafios de ser transgênero no Brasil

Os desafios enfrentados no Brasil, um país com mais de 700 mil pessoas que não se identificam com o gênero biológico, mas que ao mesmo tempo o que mais mata travestis e transexuais no mundo

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08 OUT 2017Por Rafaella Martinez06h00
Falar sobre identidade de gênero é caminhar por um universo ainda aberto e passível das mais diversas interpretaçõesFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Quando criança, Bento Araújo nunca entendeu o motivo pelo qual a imagem no espelho não refletia seu verdadeiro eu. A inadequação na infância o acompanhou durante a puberdade: se questionava por qual motivo não podia namorar uma colega de sala e por que precisou começar a usar blusa para jogar bola na rua durante a pré-adolescência. “Nenhum amigo passava por aquilo. Por qual motivo eu tinha que passar, já que eu também era um menino?”, relembra.

É considerado transgênero o indivíduo cujo comportamento se distancia das regras estabelecidas para o gênero em que nasceu. Já o termo transexual descreve quem tomou hormônios e/ou se submeteu a cirurgia para aproximar o próprio corpo das características do gênero com o qual se identifica. “A questão central desse grupo não é a orientação sexual e sim a forma como eles se enxergam. Há casos de pessoas que optam pelo tratamento hormonal e redesignação sexual, mas continuam atraídas pelo sexo oposto ao de nascimento”, conta a psicóloga do Ambulatório Trans de Santos, Maria Cristina Arruda Soares (confira reportagem completa sobre o serviço na matéria de amanhã).

Falar sobre identidade de gênero é caminhar por um universo ainda aberto e passível das mais diversas interpretações. A ciência médica ainda não conseguiu identificar as causas da disforia de gênero – termo que atualmente designa esse grupo. Alexandre Saadeh, psiquiatra referência no atendimento a pessoas trans, acredita que os casos de transtorno de gênero têm base biológica, surgida na gestação quando o cérebro e a genitália ainda estão em desenvolvimento. A teoria pode ser respaldada em casos de gêmeos onde ambos não se identificam com o sexo de nascença.  

Para além dos rótulos, ser trans no Brasil é sinônimo também de perigo. O país é o que mais mata travestis e transexuais no mundo. Em 2016, foram 127, um a cada 3 dias. A expectativa de vida deles é de 35 anos, menos da metade da média nacional, que é de 75 anos.

No limite dessa linha está Thays Villar Santos Bras. Aos 35 anos a atriz profissional começou o tratamento hormonal, após um longo período de dúvidas e sofrimento. “Quando criança eu já percebia que não me identificava com questões masculinas, mas ainda não sabia que não era um menino. Naquela época a informação não era difundida e como eu era de uma família conservadora mascarei minha verdadeira identidade por muitos anos”, conta.

As máscaras a acompanharam durante parte da fase adulta, quando passou a frequentar o meio homossexual. “Eu me sentia tão sufocada que extravasava meu lado feminino sem me expor. E nesse processo fui me identificando. Percebi que como mulher eu não precisava de filtros. Eu era eu mesma”.

Tentar se enquadrar aos padrões estabelecidos pela sociedade também foi o motivo que levou Bento a demorar alguns anos para iniciar o tratamento hormonal. Mesmo tendo trabalhado como modelo na adolescência,  nunca se identificou com o sexo biológico. “Eu sempre fui um menino. No entanto, durante a minha vida fui me adequando à imagem que esperavam de mim e ao fim desse processo comecei a me libertar de cada uma dessas amarras”, conta.

Bento hoje é um homem de 27 anos esguio, tatuado e com a voz grave. No entanto, é sereno ao falar sobre seu processo de transição. “Não foi doloroso. Cheguei a passar por uma crise pesada, onde sumi com os espelhos de casa. Mas um dia acordei e percebi que a vida era o que eu iria fazer dela. Não tive mais problemas durante a minha transição, pois a partir do momento em que eu me aceitei a aceitação externa também veio”, conta.

Transição

Os dois personagens ouvidos nesta reportagem são apenas um prisma sobre a questão de gênero (leia algumas das definições no quadro).

“É preciso ter em mente que existe o sexo masculino e o feminino e um leque imenso de possibilidades entre esses dois gêneros. Debater isso hoje, em um contexto onde as pessoas têm menos medo de se expor não significa que existam mais transexuais no mundo e sim que estamos evoluindo enquanto sociedade na garantia dos direitos dessa população”, diz Érico Heilbrun, endocrinologista responsável pelo Ambulatório Trans do Hospital Guilherme ­Álvaro.

Embora esteja saindo da invisibilidade, as portas do mercado de trabalho nem sempre estão abertas a esse grupo.  “Fiz o processo seletivo da empresa onde trabalho e somente na entrega dos documentos expliquei que haveria uma pequena diferença entre o meu eu atual e a foto. Foi um choque, mas todos aceitaram bem”, conta Bento.

Thays, que atualmente trabalha como analista de backoffice de uma grande empresa de telemarketing, afirma ter encontrado no ambiente profissional a segurança para passar pela mudança sem ser discriminada. No entanto, ainda sente falta da representatividade trans em profissões tradicionais. “Tenho plena ciência que eu tive sorte nesse quesito. Casos como o meu e o do Bento ainda são raros, infelizmente. Nossa população, na maior parte das vezes, está em subempregos ou na marginalidade. Parece que o caminho até o fim do preconceito ainda está longe, mas aos poucos estamos evoluindo”, afirma.

De acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), com a falta de aceitação do empregador formal, 90% desse público tem de recorrer à prostituição para sobreviver.

Em tempo: em um momento onde muito tem se falado sobre a possibilidade da homossexualidade voltar a ser tratada como doença, a transexualidade continua oficialmente classificada como patologias na Classificação Internacional de Doenças (CID) - principal manual de diagnóstico médico.  

O CID F64 enquadra ‘o desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto’ como um transtorno de identidade sexual. “Reivindicamos os termos transexualidade e travestilidade como uma condição fisiológica inata, é preciso adotar uma postura de legalização, reconhecimento e respeito dessa população”, defendeu a assistente social e secretária-executiva da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), Fernanda de Moraes, durante o Fórum 'Transexualidade e o diálogo com os saberes' realizado em julho deste ano.

Para além dos rótulos de transgênero, transexual ou mulher trans, Thays prefere ser direta. “Quando alguém pergunta sobre mim eu digo apenas que fui, sou e sempre serei uma mulher”, finaliza.

Processo transexualizador

Para ambos os gêneros, a portaria Nº 457  do Ministério da Saúde, de agosto de 2008, estabelece que a idade mínima para procedimentos ambulatoriais seja de 18 anos. Esses procedimentos incluem acompanhamento multiprofissional e hormonioterapia. Para procedimentos cirúrgicos, a idade mínima é de 21 anos.

Para as mulheres transexuais, a cirurgia de redesignação sexual envolve essencialmente a reconstrução dos genitais (embora outros procedimentos possam ocorrer), enquanto que nos homens transexuais ela compreende um conjunto de cirurgias, incluindo remoção dos seios, reconstrução dos genitais e lipoaspiração.

A retirada dos seios é usualmente o único procedimento que eles se submetem, além da histerectomia, principalmente porque as técnicas atuais de reconstrução genital para homens transexuais ainda não criam genitais com uma qualidade estética e funcional satisfatória.

Muitos optam por fazer uma faloplastia com médicos renomados do exterior. Para mulheres transexuais, a cirurgia de feminilização facial e o aumento de seios são passos do processo de redesignação sexual.

 

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