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Quadriculando

André Rittes

André Rittes é jornalista, mestre em Educação e professor universitário. Começou a escrever aos 14 anos e é ganhador de cinco prêmios em concursos de contos, três estaduais e dois nacionais.

O caipira que criou os quadrinhos?

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09 JAN 2017Por André Rittes12h40

Quem sabe um pouco sobre a história das histórias em quadrinhos, com certeza também sabe que tudo começou com o norte-americano Richard Felton Outcault e sua mais famosa criação, The Yellow Kid, em 1895. O que pouca gente sabe é que, pelo menos 25 anos antes, um caipira criado aqui no Brasil já havia se transformado no primeiro personagem da primeira história em quadrinhos do mundo.

 O ítalo-brasileiro Angelo Agostini criou “As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte”, a primeira história em quadrinhos do Brasil – e, talvez, do mundo – para contar, na forma de desenhos em sequência, as desventuras de um caipira que vai para o Rio de Janeiro. Foi publicada na revista Vida Fluminense em 30 de janeiro de 1869.

Mesmo levando-se em consideração que o Yellow Kid de Outcault apareceu em 1894, antes de ser publicado oficialmente em 17 de fevereiro de 1895; o caipira brasileiro Nhô Quim inaugurou os quadrinhos quase três décadas antes. Então, por que quase nenhum pesquisador considera a obra brasileira a que realmente criou os quadrinhos como os conhecemos hoje?

Há alguma polêmica, mas a maioria concorda que The Yellow Kid tinha elementos do que viria a ser a HQ moderna, enquanto o trabalho de Angelo Agostini seria uma espécie de “embrião” de quadrinho. É, por exemplo, a opinião de um dos mais renomados e respeitados historiadores das HQs, Álvaro de Moya: "A linguagem das HQs, com a adoção de um personagem fixo, ação fragmentada em quadros e balõezinhos de texto, surgiu nos jornais sensacionalistas de Nova York com o Yellow Kid” .

Muitos dizem, também, que o trabalho de Agostini era mais próximo dos quadrinhos modernos, principalmente na questão sequencial, mas reconhecem que a influência do “garoto amarelo” foi mais decisiva do que o quase esquecido trabalho de Agostini. O fato de o ítalo-brasileiro não ter se dedicado ao seu personagem, como fez Outcault, também pode ter influenciado a visão dos pesquisadores.

Agostini foi mais empenhado no jornalismo crítico, mesmo através de desenhos, do que preocupado em fazer de seu caipira famoso uma obra para a posteridade. Já o americano Outcault criou outros personagens como Buster Browne e se dedicou a explorar as possibilidades dos quadrinhos como linguagem, criando painéis narrativos múltiplos e até alguns balões de diálogo.

Talvez, a polêmica ainda demore para terminar, mas a verdade é que, para algumas pessoas, quem inventou as histórias em quadrinhos foi um caipira brasileiro e não um garoto dentuço com cara de bobo...

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