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Falando Sério

Valter Batista de Souza

Liberdade, essa palavra

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29 SET 2017Por Valter Batista de Souza11h42

Concordo que a liberdade de expressão seja um valor inegociável. E concordo também com a ideia de uma sociedade que seja mais tolerante e menos reacionária.
O meu "gosto" pode ser bom ou mau para outrem. Mas é meu. Quero ter o direito de expressá-lo livremente, sem policiamentos ou controles que sejam abusos ao que me convém e que não ataque o direito coletivo ou subjetivo.
Há leis que deixam claro o que é crime e o que não é. Defendo que a sociedade tenha a condição plena de manifestar, questionar, criticar e até mesmo boicotar o que não lhe convém. Mas qual é o limite para isso?
Eu posso gostar de funk, mas posso não gostar de algumas letras deste estilo musical. Eu quero ter o direito de não gostar e de não ter que ouvir. Se toca o que não gosto, mudo de estação. Mas há quem goste. E não tenho o "direito" de julgar o outro porque ele simplesmente pensa diferente de mim ou mesmo de querer que seja proibido porque não me "agrada".
No passado, a capoeira era proibida, o samba também, o Jazz e o Blues idem. As Igrejas queimavam e queimam livros, o que faziam também com pessoas. O stalinismo e o nazismo também.
Está tudo na mesma esfera.
O conceito ético da arte é mais maleável do que o de nossas sociedades. Arte choca. Arte comove. Arte impressiona. Arte agride. Arte projeta. Arte é arte.
É pequeno demais achar que o meu conceito ético é a dimensão única do que a Arte pode representar e que este seja também o seu limite.
Arte tem uma dimensão estética também. E esta, mais do que qualquer outra, precisa ter uma elasticidade ainda maior. A estética artística é o que faz de uma iniciativa "arte" ou "qualquer outra coisa que não seja arte". Não é apenas e tão somente o que eu interpreto, mas o contexto histórico, cultural, antropológico, sociológico, filosófico, metafórico, metalinguístico, semiótico, teleológico, enfim, multidimensional, que materializa uma obra de arte.
É pobre, extremamente pobre, tentar fazer este debate no campo do senso comum.
Pensem como quiserem, ajam como quiserem, concluam o que quiserem, mas a "radicalidade" é necessária para este debate.
Muita gente não sabe o que é Arte, é muita gente "mesmo" que não sabe "mesmo", o que não é um "crime", mas uma consequência de nossa educação frágil, inconsistente e empobrecida pelos preconceitos, dogmas e paradigmas de uma sociedade que aprendeu a ser muda e que ainda resiste a ser livre.
Não vi a "Queer" exposição. Não me atreveria a compartilhar imagens do que não vi. Mas não levaria meus alunos antes de contextualizar seu tema ao que trabalhamos em sala de aula, não levaria minha filha adolescente sem ter a clara noção do que encontraríamos, assim como não iria com eles a um "Pistão" com o caminhão do "Doidão" ou a um "Baile de Favela"! Mas há quem goste. E não recrimino. Não prejulgo. Porque primo pela liberdade "essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda"! (Cecília Meireles)

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