Entrada da Cidade

Koyu Iha: 'O Legislativo não fiscaliza mais ninguém'

A frase é de um homem que foi vereador sem salário e, quando prefeito de São Vicente, não quis ficar no mandato por seis anos alegando que foi eleito para administrar por quatro

Comentar
Compartilhar
10 JUL 2018Por Carlos Ratton12h01
Ex-deputado estadual e federal, Koyu Iha, que se desfiliou do PSDBFoto: Rodrigo Montaldi/DL

A frase é de um homem que foi vereador sem salário e, quando prefeito de São Vicente, não quis ficar no mandato por seis anos alegando que foi eleito para administrar por quatro. Ex-deputado estadual e federal, Koyu Iha, que se desfiliou do PSDB (apesar de ser um dos fundadores da legenda), é pré-candidato a deputado federal pelo PROS, numa tentativa de voltar ao cenário político nacional para tentar provar, entre outras coisas, que pode-se fazer política de forma diferente. Confira a entrevista: 

Diário do Litoral – Qual o motivo da saída do PSDB?
Koyu Iha –
O PSDB surgiu pelo clamor da ruas de poder contar com um partido não atrelado ao poder e mais fiscalizador. Na época, apesar de existir, não se discutia corrupção. Ela não era tão institucionalizada como hoje. Só que, de uns tempos para cá, o PSDB perdeu sua essência. O que me deixou muito constrangido, que me incomodou, foi a denúncia contra o Aécio (senador Aécio Neves). Pior ele tentar se manter no cargo (presidente nacional do partido). Se ele tivesse se licenciado para permitir que tudo fosse apurado em ficaria tranquilo. Mas não, ele retornou ao partido para evitar que o Tasso Jereissati - senador, ex-Governador do Ceará e ex-presidente Nacional do PSDB – não assumisse a presidência. Tive certeza que acabou a postura ética do partido. Não basta ser honesto, tem parecer honesto. 

Diário – Ele (Aécio) pregou honestidade durante toda a campanha à Presidência e, depois, os escândalos foram chegando. 
Iha –
Eu não poderia ficar em um partido em que alguém, sob acusação de corrupção, permanecesse na presidência. Ele não abriu mão do cargo nem para que o processo corresse livremente e nem para permitir que a denúncia chegasse à comissão de ética do partido. Ele acabou com um dos princípios básicos do PSDB. Esse evento do Aécio foi o ponto final. 

Diário – Por que a candidatura de Geraldo Alckmin não decola?
Iha –
Por que a opinião pública cobra o partido e seus representantes pagam politicamente. Alckmin é o que possui maior experiência, é cauteloso e, diante da atual crise, seria o articulador de uma ampla composição nacional. Mas o Aécio prejudicou todo mundo. Aquele linguajar da primeira gravação, com um dos maiores empresários do País, não é digna de um senador da República. O mesmo desgaste ocorreu com o PT. 

Diário - Como avalia a política regional e nacional?
Iha –
A política se tornou um grande balcão de negócios. Os três grandes partidos – PT, PSDB e MDB – estão dilacerados. O PT era mais unido, mas já há divergências na legenda em diversos pontos do País. Até existe tentativas de composições diferentes. Todos estão assim. Virou negócio. Oportunismo puro. A sociedade toda já percebeu. 

Diário -  Os políticos atuais representam a sociedade?
Iha –
Sim, pois a sociedade atual é quem os elege. O Congresso Nacional é um reflexo da sociedade. Ele representa todas as suas parcelas. Nós temos culpa de quem está lá. E essa culpa não é tão forte a ponto de colocarmos em pauta uma coisa importante: a reforma dos partidos. A democratização das legendas. O cidadão só tem oportunidade de escolher o candidato indicado pelo partido que, por sua vez, tem seus interesses. Os acordos para se obter minutos a mais na TV faz parte desse sistema perverso. A redemocratização tem que ser feita primeiro dentro dos partidos. O mesmo ocorre com a distribuição da verbas eleitorais, que precisam ser transparentes. Se a pessoa tiver chance, mas não fizer parte da cúpula do partido, está fora.  

Diário – Você estava muito tempo afastado. Tudo isso te chateou?
Iha –
Eu sai do PSDB e nem pensava em ser mais voltar à ativa. Minha família, inclusive, não estava aprovando. Mas eu gosto de discutir política e gostaria de colocar em pauta tudo o que eu entendo que está errado. O Legislativo não fiscaliza mais ninguém. O cidadão é eleito e, logo depois, assume um cargo no Executivo. Esses acordos são nefastos. 

Diário – Quem é o melhor candidato ao Governo do Estado?
Iha –
Márcio França é o mais preparado para assumir o Governo. Ele conhece de gestão da coisa pública. São Paulo representa a estabilidade econômica do País e ele sabe disso. 

Diário - Como avalia o caso de Artur Parada Prócida?
Iha –
Lamentável. Muito amigo meu e, por isso, levei um susto quando soube o que aconteceu.   

Diário - Tem como tirar o MDB do poder?
Iha –
Difícil. A bancada dele sempre é muito grande e dá as cartas. É mais fácil o MDB tirar um presidente do que o contrário. Governar e pegar todos os segmentos contrários a você e costurar um acordo que não prejudique a sociedade. Hoje, o noticiário brasileiro tem como principal pauta o combate a corrupção. A bandeira dos candidatos também é essa. Ora, ninguém pode ser a favor da corrupção. A minha maior bandeira será fiscalizar o Governo, porque acredito que essa é a única e verdadeira ação contra a corrupção. Os partidos de oposição não estão fazendo isso. O Congresso está paralisado. A omissão é que levou o Brasil a atual situação. O pior é que estão querendo um novo processo autoritário por acreditarem que é a única forma de acabar com a corrupção. Um governo autoritário esconde ainda mais. É quando os privilégios são concedidos legalmente, sem que ninguém possa reclamar.

Colunas

Contraponto